Desgaste da guerra no sudeste da Turquia reduz apoio ao PKK

Dogan Tiliç.

Ancara, 31 mai (EFE).- Os destroços deixados por cinco meses de guerra urbana paralisaram grande parte da vida no sudeste da Turquia e reduziram o apoio que a guerrilha curda, o PKK, recebe da população local.

As autoridades militares divulgaram nos últimos dias imagens de dezenas de jovens que se rendiam perante o avanço das tropas turcas em Nusaybin, cidade da província de Mardin, onde desde março ocorrem violentos combates nas ruas.

É difícil saber se todos são efetivamente milicianos do proscrito Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), como afirma o exército, ou simplesmente civis no fogo cruzado, como diz o partido esquerdista pró-curdo HDP, o terceiro do parlamento em número de cadeiras.

O PKK declarou na última sexta-feira, em comunicado emitido pela agência curda "Firat", que os milicianos de Nusaybin se retiraram da cidade após 72 dias de resistência a uma "destruição impiedosa" porque era "necessário mudar de posição".

"Com este objetivo, nossas forças se retiraram de forma bem-sucedida da cidade e chegaram a suas bases no dia 25 de maio. Não temos mais forças armadas em Nusaybin", relatou.

Nas imagens divulgadas pelo exército turco é possível observar um bairro inteiro aos pedaços, com dezenas de adolescentes, tanto meninos como meninas, que caminham com uma bandeira branca e recebem ordens para se deitar no chão.

Naci Sapan, que já trabalhou como jornalista e agora é político em Diyarbakir, a "capital curda", considera provável que pelo menos alguns dos jovens sejam combatentes efetivos.

Esta é a primeira vez que se veem guerrilheiros se rendendo: "Antes, a norma era combater até a morte", explicou Sapan. Mas o contexto é bem diferente dos combates que o PKK iniciou em 1984 e que continuaram com altos e baixos até o cessar-fogo proclamado em março de 2013 e quebrado em julho do ano passado.

Até então quase sempre ocorriam tiroteios em regiões desabitadas, entre comandos bem treinados da guerrilha e patrulhas militares.

Desde o ano passado, no entanto, jovens que aderiram ao PKK ergueram barricadas em vários bairros do sudeste para impedir a passagem da polícia, em uma tentativa de levar à prática uma espécie de regiões curdas "autônomas".

Cargas explosivas de fabricação caseira e franco-atiradores com armas automáticas tentaram conter o avanço das tropas governamentais em bairros de várias cidades do sudeste, inclusive o centro histórico de Diyarbakir.

O exército respondeu com a imposição do toque de recolher e atacando as posições com tanques e artilharia pesada, algo que paralisou totalmente a vida nos bairros afetados.

"Esse sistema teve um resultado catastrófico. Impossibilitou toda a vida normal e as pessoas começam a recriminar o PKK que combate em seus nomes, mas na realidade os prejudica. Eles perguntam: 'Se vocês defendem os meus direitos, por que eu saio perdendo?'", disse Sapan.

"A economia está morta. Há meses não nenhuma loja abre no mercado de joalherias, o coração de Diyarbakir. A construção está paralisada, pararam os investimentos para vários grandes hotéis na cidade. Há raiva, e isso levou a uma evidente erosão no PKK. Quando começaram as rendições, declararam a retirada", comentou o analista.

Mas se alguns dos milicianos mais experientes conseguiram fugir, os adolescentes que aparecem nas imagens divulgadas pelo exército "expressam desesperança, decepção, se perguntam como se salvar para sobreviver", ponderou.

As rendições foram interpretadas pelo governo turco como um sinal de que essa postura dura é bem-sucedida.

"Está tudo sob controle. Vêm grupos inteiros para se render. Estes jovens, que escolheram a vida ao invés da morte, deveriam ser um exemplo para os demais, que foram enganados pela organização terrorista. Após as cidades, também limparemos as zonas rurais de terroristas. Esta limpeza continuará até o final", disse recentemente o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Em depoimentos divulgados pelo exército turco, vários jovens declararam que se sentem decepcionados com a guerrilha que os convenceu a pegar em armas.

Mas se há raiva contra o PKK e o partido mais próximo a seus simpatizantes, o HDP, maior ainda é a fúria em relação ao partido governamental, o islamita AKP, considerou Sapan.

"O povo também culpa o governo. Muitos estão perdidos politicamente. É difícil prever em quem votariam nas eleições porque nas regiões curdas não há alternativa entre o AKP e o HDP. Pode ser que voltassem a votar no HDP", analisou o político.

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