Reintegração e esperança: a chave da liberdade para os presos de Guantánamo

Jairo Mejía.

Washington, 31 mai (EFE).- Quinze minutos de atraso não são nada para Sufyian Barhoumi, um argelino que passou 14 anos detido na Base Naval de Guantánamo e que, com o novo impulso para revisar os casos e esvaziar local, poderá deixar a prisão nos próximos meses.

Barhoumi espera paciente em uma mesa, acompanhado de seu tradutor e dois oficiais militares, seu nome ser anunciado por um dos funcionários do chamado Conselho de Revisão Periódica (PRB, na sigla em inglês), uma espécie de reavaliação da pena determinada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para acelerar a saída dos detidos da prisão americana em território cubano.

O argelino chegou a Guantánamo após ser preso no Paquistão pelos serviços de inteligência daquele país em uma casa na qual também estava um dos prisioneiros de maior valor do centro de detenção americano em Cuba: Abu Zubaydah.

"Todos os meus problemas se devem por estar em uma casa com Zubaydah", disse durante depoimento em 2006 Barhoumi, cujo périplo longe da Argélia começou em meados dos anos 90, em Barcelona.

O argelino buscava trabalho na Espanha e pretendia prosperar, mas, como na história de muitos dos que passaram por Guantánamo, a imigração não foi um mar de rosas. Em algum momento, a trajetória de Bahroumi rumou em direção ao radicalismo.

Ele foi recrutado em Londres e, pouco antes dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, já estava com membros da Al Qaeda no Paquistão e Afeganistão, entre eles Zubaidah, membro-chave da logística do grupo e um dos tenentes de Osama bin Laden.

Agora ostentando uma longa barba cinza, Barhoumi escuta pacientemente as instruções prévias a sua audiência, que é retransmitida por um circuito fechado de televisão a um reduzido número de testemunhas no Pentágono.

Obama, que encerra seu mandato em janeiro de 2017, está ficando sem tempo para fechar Guantánamo, uma de suas promessas da campanha de sua primeira eleição. Por isso, a Casa Branca quer acelerar as revisões de casos de presos considerados pouco perigosos.

Barhoumi é um deles. Tem um histórico pouco conflituoso, aprendeu inglês e, segundo seus advogados, até ajuda aos guardas que chegam à prisão para que aprendam a rotina quase religiosa do local.

"Ele se deu conta de seus erros e os lamenta profundamente. Sufyian quer deixar o passado para trás e pensar só no futuro. Não guarda rancor dos Estados Unidos e vê seu tempo em Guantánamo como uma oportunidade para crescer e amadurecer", disse Shayana Kadidal, advogado de Barhoumi.

No mesmo dia em que Barhoumi explicava suas intensões de montar um negócio e começar uma nova vida, o Congresso ouvia a história de Hamed Abderrahaman Ahmed, o único espanhol que passou por Guantánamo, e que em fevereiro deste ano foi preso pela Polícia Nacional da Espanha por recrutar jovens para o Estado Islâmico (EI).

Quando foi libertado, Ahmed disse que queria ser caminhoneiro. No entanto, ele voltou a ser preso por crimes ligados ao terrorismo, um argumento a mais para os congressistas americanos que não acham uma boa ideia fechar Guantánamo e libertar seus presos.

Dos 80 detidos atuais, o Pentágono realiza audiências preparatórias para julgar sete deles e prevê processar outros 14 - que seriam levados para prisões militares nos EUA. Não se sabe o destino dos demais, se serão transferidos ou colocados em liberdade, já que eles não são acusados formalmente.

As oito visitas do Conselho de Revisão Periódica no mês de maio seguem a rotina de sempre: os presos que não foram acusados de crime algum ouvem em silêncio as declarações escritas e, posteriormente, testemunham em defesa própria.

Em uma sala do Pentágono, um pequeno grupo de jornalistas e representantes de organizações de direitos humanos assistem aos primeiros dez minutos da audiência, nos quais o preso não fala.

Atualmente, 37 detentos estão esperando uma audiência do PRB para poder acelerar o processo de serem transferidos para um terceiro país e iniciar uma nova vida em liberdade vigiada.

O Departamento de Defesa dos EUA espera finalizar todas as revisões até o segundo semestre, fechando a prisão criada em 2002 pelo então presidente George W. Bush.

Faltaria esclarecer apenas o destino dos presos que ainda não foram julgados e daqueles que são considerados perigosos demais para serem colocados em liberdade.

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