Remota paisagem na Flórida se transforma em lar de gorilas resgatados

Emilio J. López.

Miami, 4 jun (EFE).- Os famosos que posam em fotos embalando bebês de orangotango não sabem que no centro do estado da Flórida, em Wauchula, uma remota paisagem florestal é um dos mais importantes lares de grandes símios nos Estados Unidos.

Santuário para grandes primatas fundado em 1993, o Centro para Grandes Símios é uma área silvestre de 120 acres (486 mil metros quadrados) onde convivem espécies de macacos como orangotangos, chimpanzés e bonobos resgatados da indústria do entretenimento, laboratórios de experiência científica, zoológicos e lojas de animais de estimação.

Uma tarefa altruísta para a qual não favorecem em nada as fotos que circulam pelas redes sociais de famosos como Paris Hilton, Khloe Kardashian e o jogador James Rodríguez beijando filhotes de primatas.

A cena é menos inocente do que parece. De fato, é danosa. Danosa porque prejudica os esforços de organizações internacionais que tentam acabar com o tráfico ilegal de macacos e seu uso como atração em zoológicos e filmes.

Associações como o Centro para Grandes Símios reivindicam a "dignidade dos primatas e seu direito de viver em seu habitat natural", explicou à Agência Efe Patti Ragan, que, após criar a fundação, demorou quatro anos para encontrar e adquirir o terreno onde hoje fica este lar para os animais.

"Recuperamos macacos de garagens, armazéns, circos, zoológicos e inclusive de porões de casas, muitos deles em más condições de saúde, alimentados à base de pizzas e balas ao invés de verduras frescas", comentou Patti.

A tarefa de resgate dos animais é só o primeiro passo no longo caminho de sua recuperação emocional e lenta adaptação a seu novo lar no centro, que acolhe cerca de 100 primatas em suas 12 grandes estruturas ao ar livre.

Quase todos eles, disse Patti, "apresentam estresse pós-traumático e problemas de comportamento para aprender a socializar e aceitar os outros animais".

Esse foi o caso de Bubbles (nascido em 1983), o mais famoso dos chimpanzés do santuário, que pertenceu ao cantor Michael Jackson até completar sete anos.

A estrela do Centro para Grandes Símios "está muito bem de saúde. Tem 33 anos e convive com outros sete chimpanzés em seu grupo, mas ele é o macho dominante", relatou com satisfação Patti, que lembrou que, "quando chegou aqui em 2005" vindo de Los Angeles, Bubbles mostrava um "comportamento nervoso".

A fundadora da organização aproveitou para dizer que, ao contrário do que muita gente pensa, o cantor americano não deixou ao morrer nenhuma disposição especial nem dinheiro para o cuidado de Bubbles, e por isso arrecada fundos para seu cuidado, por meio do site centerforgreatapes.org.

O centro de primatas está fechado ao público e mantém um acesso muito restrito. É um terreno situado entre árvores e plantas e cercado, longe das câmeras fotográficas e das visitas de famílias, crianças, turistas e colégios.

Mas esta radicalidade deixa em dificuldades a instituição sem fins lucrativos financiada exclusivamente por meio de doações e a generosidade de seus membros, pois só o custo com cuidado, atendimento médico e alimentação de cada animal gira em torno de US$ 20 mil ao ano.

Mas Patti mantém otimismo sobre os avanços conquistados com os primatas que vivem (e morrem) ali, em cativeiro, já que o retorno a seu habitat natural é inviável.

A americana explicou que todos os símios amparados no centro "foram criados em cativeiro por seres humanos, por isso a falta de habilidades básicas para a sobrevivência impossibilita os animais de viverem na floresta".

A infância destes primatas, até os sete ou oito anos, transcorreu longe da atenção e cuidado maternos. Passada essa idade, e "dado o desenvolvimento de sua força física, eles se tornam um problema", e seus proprietários os vendem ou entregam.

"O que acontece com eles depois? Se já não podem viver sem proteção e ainda têm pela frente uma longa vida, talvez até os 50 ou 60 anos", se perguntou Patti.

Por isso é fundamental a existência de lares de grandes primatas como este, dedicados a denunciar a exploração dos animais e assegurar sua sobrevivência em condições dignas, bem alimentados e em companhia de outros exemplares da mesma espécie, até o fim de seus dias.

Talvez o mesmo destino que poderia ter tido Harambe, o gorila que morreu baleado no zoológico de Cincinnati para, supostamente, salvar a vida da criança que caiu em suas mãos pela negligência de seus pais.

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