Deserções mostram realidade de restaurantes norte-coreanos na China

Rafael Cañas.

Pequim, 5 jun (EFE).- As repetidas deserções de funcionários de restaurantes norte-coreanos na China jogaram luz sobre a situação desses estabelecimentos, que são um dos métodos que permitem ao regime de Pyongyang obter divisas de forma discreta.

Atendidos cada um por uma multidão de garçonetes, cozinheiras e intérpretes, seus uniformes e disciplina lembram, embora em outro âmbito, o grupo musical feminino Marenbong, famoso por suas loas ao líder norte-coreano e conhecidas informalmente como "as meninas de Kim Jong-un".

A última deserção foi a de três funcionárias de um restaurante na província chinesa de Shanxi, um caso que foi divulgado nesta semana, assim que chegaram à Coreia do Sul.

Em abril, o encarregado e 12 garçonetes de um restaurante de Ningbo, no leste da China, fugiram para a Coreia do Sul, e em maio foi anunciada nesse país a fuga de outro grupo de duas ou três pessoas de um estabelecimento similar.

Estas deserções chamaram a atenção por dois motivos, primeiro porque o pessoal destes restaurantes é escolhido por sua lealdade ao regime e segundo porque, de acordo com a Coreia do Sul, as funcionárias são filhas de famílias vinculadas à elite dirigente.

Também se destaca a nova benevolência das autoridades chinesas, que explicam que não podem deter a passagem dos desertores a caminho da Coreia do Sul (normalmente através de um terceiro país como Tailândia ou Vietnã) se tiverem documentos de viagem válidos.

A primeira deserção, também a mais numerosa, enfadou muito o governo norte-coreano, que afirmou que os 13 desertores tinham sido sequestrados e exigiu - sem sucesso - sua repatriação.

Os restaurantes em países estrangeiros são uma das ferramentas que o regime da Coreia do Norte utiliza para conseguir divisas, especialmente agora que a nova onda de sanções internacionais após o teste nuclear de janeiro afetou inclusive o comércio com a China, seu tradicional apoio.

As autoridades norte-coreanas não oferecem números, assim como a China, que se recusou recentemente a detalhar quantos restaurantes operam em seu território.

Segundo a Coreia do Sul, o regime de Kim Jong-un opera 130 restaurantes em 12 países - a maioria deles na China - que lhe gerariam US$ 10 milhões anuais.

Em Pequim, uma busca rápida revela pelo menos oito restaurantes norte-coreanos. Um dos mais conhecidos está situado ao lado da embaixada de Pyongyang, no bairro diplomático de Ritan, e as garçonetes, todas meninas e jovens, residem no mesmo complexo da própria legação diplomática.

É comum vê-las fazer o trajeto entre ambos os edifícios sob evidente companhia masculina, aparentemente para evitar que possam desviar-se do caminho oficial.

Os restaurantes oferecem pratos típicos da península coreana, com grelhas para assar carne colocadas em cada mesa, para que os clientes cozinhem a seu gosto, além de verduras e "kimchi", a tradicional couve fermentada, e peixes e cefalópodes à prancha.

Para beber, a cerveja norte-coreana de marca Taedonggang e também um licor, o soju, similar ao saquê japonês, mas aromatizado com ginseng.

Outro dos restaurantes está no bairro de Wangjing, conhecido popularmente como "Koreatown" pelo elevado número de cidadãos sul-coreanos que vivem ali.

Após o último teste nuclear de Pyongyang, o governo de Seul pediu a seus cidadãos (expatriados ou turistas) que não frequentem estes estabelecimentos a fim de não ajudar a financiar o regime do Norte.

Ali, com mais clientela oriental, há mais pratos que espantariam turistas ou curiosos ocidentais, como sopa, carne ou costelas de cachorro, e a "sopa da longevidade", elaborada com tartaruga-aligator.

A decoração oscila entre a interpretação local da modernidade e o recarregado ornato oriental. Em alguns há palco para apresentações musicais (todas as artistas são mulheres) que variam dos instrumentos tradicionais ao grupo pop de bateria, saxofone e guitarra.

E todas as funcionárias, inclusive as cozinheiras, usam uniformes impecáveis, com gestos contidos e atendimento excelente aos clientes. Ali é quase impossível fazer fotos ou conversar algum assunto que não seja estritamente profissional.

Com um chinês muito correto, uma garçonete se limita a indicar que também fala russo e está há pouco menos de um ano na China, um período no qual não saiu de Pequim.

Para fechar a noite, também são vendidas "lembranças" da Coreia do Norte, como livros com coleções de selos (especialmente com os sucessivos líderes norte-coreanos da dinastia Kim) ou tônicos de ginseng.

Em outros restaurantes norte-coreanos, em áreas menos acessíveis aos ocidentais, é possível ver indícios mais claros de sua origem, como bandeiras nacionais, segundo se pode constatar nas redes sociais.

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