Ramadã: o mês que transtorna a vida dos muçulmanos

Javier Otazu.

Rabat, 6 jun (EFE).- O mês sagrado muçulmano do Ramadã, que começa entre hoje e amanhã, transtorna a vida de 1,7 bilhão de pessoas que professam o islã no mundo, representando 22% da população mundial.

As horas de abstinência entre o nascer e o pôr do sol - nas quais não se pode comer, beber ou fumar - obrigam a adaptação de todos os horários de trabalho, datas de prova, entrevistas de emprego, e principalmente alteram totalmente o ritmo diário de cada pessoa, concentrando na parte da noite todas as atividades.

No Ramadã se vive de noite. É durante a noite que os fiéis comem, se reúnem, vão à mesquita, comem de novo, assistem TV e até fazem reuniões de trabalho.

Resultado: são muitas as pessoas que dormem pouco e mal (devido à digestão de comidas pesadas) durante o mês do Ramadã, e no Marrocos, por exemplo, a Sociedade do Sono lançou uma campanha para sensibilizar os motoristas para não pegar no volante caso não tenham dormido as oito horas recomendadas.

Neste ano, como nos anteriores, o Ramadã será em pleno solstício de verão e as horas com luz do sol são longuíssimas. Em grande parte da Europa, por exemplo, em metade do mês sagrado o jejum irá durar 17 horas e 20 minutos, sobrando menos de sete horas para quebrá-lo.

Similares são esses períodos no mundo árabe, e ainda mais rigorosos (com mais horas de luz e de abstinência) quanto mais ao norte a pessoa morar.

Em alguns países, como no Marrocos, o governo reprograma o relógio e o atrasa em uma hora durante todo o mês. Embora o tempo de abstinência seja o mesmo, a hora de interrompê-lo chega antes e é mais suportável.

Fato é que não são apenas as famílias que se empenham em apresentar uma mesa cheia de delícias durante esse período. As emissoras também fazem durante o Ramadã seus maiores investimentos anuais em programas de entretenimento, entre os quais as séries locais, as comédias e os programas de câmera escondida são os que mais fazem sucesso.

O consumo de horas na frente da TV durante o Ramadã bate todos os recordes, já que a quebra do jejum é aguardada em família, vendo televisão, e o aparelho costuma ficar ligado da primeira à última refeição, que pode durar até mais de duas horas.

Mas o que sem dúvida bate recordes indiscutíveis é o consumo de comida: a quantidade de ovos, tâmaras, leite, farinha, açúcar e carne é neste mês, paradoxalmente, muito superior a qualquer mês do ano, porque se existe algo que é triste para um muçulmano isso é passar fome nas noites do Ramadã.

Os nutricionistas também têm trabalho redobrado neste período dando conselhos sobre o bem comer e o bem dormir, lembrando (sem muito sucesso) que diabéticos e pessoas doentes não devem jejuar e que o esporte deve ser feito de forma moderada, e em nenhum caso (como acontece com frequência) antes do fim do jejum.

E se esse é um mês de superar limites, a presença nas mesquitas igualmente aumenta: se durante o ano a grande maioria de muçulmanos vai ao templo uma vez por semana, para a reza das sextas-feiras, são muitos os que neste mês procuram o seu local sagrado uma ou até duas vezes ao dia, para a reza da noite e para uma oração especial típica deste mês, chamada Tarawih.

O Ramadã é um mês de prosperidade para os comerciantes, principalmente para os do ramo da alimentação, mas no resto de setores a produtividade cai muito. No entanto, quase não existem estudos a respeito, já que fazer tal levantamento representaria questionar as virtudes do mês sagrado.

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