Descendentes mexicanos de Trotsky reconstroem história familiar na Rússia

Ignacio Ortega.

Moscou, 7 jun (EFE).- Assassinatos, fuzilamentos, deportações e suicídios fazem parte da história familiar do revolucionário Leon Trotsky que seus descendentes mexicanos tentam agora reconstruir com ajuda dos parentes que sobreviveram à repressão na Rússia.

"Meu pai é neto de Leon Trotsky. Chegou ao México antes de meu bisavô ser assassinado por Ramón Mercader em 1940", afirmou à Agência Efe Patricia Volkow Fernández, bisneta do líder bolchevique, que teve que se exilar no México (1936) para fugir da ira stalinista.

A mexicana fez estas afirmações em um hotel moscovita pouco após conhecer Zinaida Volkova, irmã de seu pai, Vsevolod, em uma tentativa de fechar feridas e reconstruir a árvore genealógica de Trotsky (1879-1940).

"É minha tia!", repetia emocionada junto com Zinaida esta médica de profissão que não duvidou em atravessar o Atlântico para se reunir com uma das poucas sobreviventes da saga familiar que ainda permanece neste país.

Os Volkow mexicanos mantiveram viva a chama da lembrança de Trotsky, tanto que as quatro filhas de Vsevolod viveram ainda meninas na casa onde o fundador do Exército Vermelho foi brutalmente assassinado.

"Milhares de pessoas sofreram a repressão política na União Soviética. Mas a família de meu pai é uma das mais atingidas (...) e de maneira muito cruel", ressaltou.

A peripécia de seu pai, de 90 anos, e de sua tia, que tem agora 81, é um testemunho da ignomínia stalinista e da força inquebrantável dos laços familiares.

Vsevolod deixou Moscou com menos de quatro anos na companhia de sua mãe, Zinaida - um dos quatro filhos de Trotsky de duas mulheres diferentes -, com destino a Berlim, onde devia se reunir com sua irmã.

No entanto, a irmã morre de tuberculose e Zinaida "tira a própria vida, embora isto não seja muito claro", de modo que é enviado a Paris, onde fica sob os cuidados de seu tio Lev.

Mas muito em breve torna a ficar outra vez só, já que Lev morre em estranhas circunstâncias, por isso que, quando Trotsky recebe asilo político no México, reúne-se com seu avô, que morreria um ano e meio depois.

Quase meio século mais tarde, aproveitando a abertura da perestroika (reestruturação), Vsevolod decide viajar para Moscou para ver sua irmã, Alexandra, mas esta morre três meses depois, sem que este saiba que ainda tem outra irmã.

O caso é que Vsevolod achou que seu pai, Platón Volkov, tinha morrido em 1928, quando foi detido, mas a realidade é que viveu sete anos mais e pouco antes de morrer teve outra filha, Zinaida (1935).

"Eu não sabia nada dos meus pais. Só me disseram que tinham morrido. E em 1956 quando começou a reabilitação de quem tinha sofrido a repressão minha tia me contou que meu pai era genro de Trotsky", relatou ela à Efe.

Zinaida, a quem advertiram que não contasse nunca a ninguém o fato, foi educada por sua tia, já que sua mãe "foi incluída em (os expurgos stalinistas de) 1937".

"E nunca soube nada mais da minha família. Só que Zinaida, a filha de Trotsky, se suicidou junto com uma criança. Por isso, nunca soube que tinha um irmão", afirmou Vsevolod.

Ele assegurou que não sentiu medo, embora "fosse uma época muito difícil", tentou se informar sobre a figura de Trotsky e quando teve a oportunidade de ler seu diário entendeu que o revolucionário "reformou muitas de suas ideias durante seu exílio no México".

"Na vida há de tudo, não pode ser tudo bom. Seu diário diz que amava muito sua família e a Rússia", destacou.

Vsevolod só se atreveu a revelar seu parentesco quando o jornal "Moskovskie Novosti" publicou pela primeira vez em 1989 uma história sobre Trotsky no 50º aniversário do assassinato, após o que foi à redação e escreveu um artigo sobre sua vida.

Pouco depois, já nos anos 90, Zinaida e Vsevolod entraram finalmente em contato, mas para Patricia Volkow não era suficiente, já que assegura que seu pai "jamais fala de sua história" e não lhes deixou que estudassem na Rússia nem que se filiassem ao Partido Trotskista.

"Nesta família se derramou muito sangue. Já não há mais o que verter", lhe disse, mas agora, por outro lado, "está emocionado".

Por isso, a bisneta de Trotsky não perde a esperança de que seu pai viaje este ano a Moscou para se reunir com Zinaida.

"A visita me deu muito mais do que esperava. Trotsky marcou a todos nós. Alguém que lutou toda a vida para melhorar as condições do povo. Ele nos ensinou o sentido da verdade", afirmou.

Por sua vez, sua tia octogenária, que não tem descendência, já não se sente só: "Encontrei uma família".

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