Pianista das ruínas de Damasco busca na Alemanha a identidade que nunca teve

Elena Garuz.

Berlim, 8 jun (EFE).- O músico palestino-sírio Aeham Ahmad, cujas imagens ao piano em meio às ruínas do campo de refugiados palestino de Al Yarmouk, no sul de Damasco, deram a volta ao mundo, busca na Alemanha o que nunca teve antes, um documento de identidade, além de tirar a família da Síria.

"Na Síria, não somos sírios nem palestinos, somos algo no meio do caminho", declarou Ahmad, de 28 anos, que nasceu em Al Yarmouk, assim como os pais e os dois filhos.

Em encontro com a imprensa na cafeteria do "Sonntags-Club", um centro de assessoria para homossexuais, bissexuais, transexuais e interessados no bairro de Prenzlauer Berg, em Berlim, onde se apresentou na segunda-feira, o músico explicou que só é classificado como "refugiado" em seu documento de identidade sírio.

Aeham caminhava com seu piano sobre rodas pelas ruas de uma cidade destroçada para transmitir esperança aos habitantes até que, no ano passado, o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) conquistou o campo de refugiados e queimou seu piano por considerar sua música algo proibido.

O pianista saiu de Al Yarmouk no dia 2 de agosto de 2015, tendo que deixar para trás a mulher, pintora, hoje com 24 anos, e os dois filhos, de um e três anos.

A chegada à Turquia foi no dia 15 de agosto e, após atravessar o mar em uma barca, pisou em território alemão em 23 de setembro, depois de passar pela rota dos Bálcãs.

Dez meses depois, conseguiu os papéis que o permitem permanecer na Alemanha pelo menos durante três anos, mas para solicitar o reagrupamento familiar terá que esperar até novembro de 2017.

"Irei ao escritório de emprego amanhã (nesta quarta-feira)", anunciou o músico, que com seus 50 quilos - dez a mais do que pesava quando fugiu da guerra civil na Síria - propaga vitalidade e ao mesmo tempo gesticula com certo nervosismo, talvez por explicar sua história em um inglês rudimentar, adquirido em poucos meses.

O objetivo de Aeham é trabalhar como autônomo para poder ganhar dinheiro legalmente - tem ofertas para tocar em Londres, Paris, Itália e Egito, além da Alemanha -, pois não concorda "que o governo (alemão) pague tudo".

"Também terei que fazer um curso de integração", disse o músico, que considera não haver maior integração do que subir ao palco e tocar para as pessoas.

Em até dez anos, Aeham prevê que já terá um passaporte de cor vermelha e que será alemão.

"Agora sou refugiado pela segunda vez. Não é fácil e estou cansado. Preciso de um documento de identidade", comentou, ao dizer que sua pátria é o piano.

Aeham não se considera um "revolucionário" nem "um famoso" ou "político", mas "um refugiado" que, ao contrário de outros, tem a sorte de contar com um palco onde pode pedir paz, direitos humanos e liberdade para as mulheres.

De certo modo, esses anseios o tornam em mais ativista do que músico - estudou educação musical para crianças na Síria -, e seu perfil o tornou em 2015 o primeiro agraciado com o recém-criado Prêmio Internacional Beethoven pelos Direitos Humanos, Paz e Liberdade.

Na opinião do pianista, é importante falar de como era a Síria antes da guerra civil, onde as pessoas tinham uma "vida bonita", não conheciam a discriminação de gays e lésbicas, e iam a uma igreja, a uma mesquita ou a uma sinagoga sem problemas.

Aeham gosta de compor, misturar música oriental com clássica, e ama Beethoven, embora seja ciente de suas limitações após ter sido ferido em uma mão pela explosão de uma granada.

"Não toco Beethoven como Martha Argerich", a quem teve a oportunidade de escutar no domingo em um recital de comemoração do aniversário de 75 anos da pianista argentina.

Nesta sexta-feira, Aeham se sentará ao piano em um show na igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche de Berlim - cujas ruínas se transformaram após a Segunda Guerra Mundial em símbolo de uma cidade ressurgente -, junto ao violinista Michael Barenboim e acompanhado de estudantes da Universidade das Artes e de outros convidados.

Na cafeteria do "Sonntags-Club", Aeham se sentou ao piano para tocar aos jornalistas a melodia que reproduzia nas ruas em ruínas de Damasco. Ao retornar à mesa, enxugou as lágrimas com as mãos para desabafar.

"Ainda tenho o cheiro das ruas em meu nariz. Um dia retornaremos à Síria, mas não para lutar, e sim para levar a paz", declarou o pianista.

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