Localização geográfica altera duração do jejum do Ramadã ao redor do mundo

Javier Otazu.

Rabat, 9 jun (EFE).- Os muçulmanos que vivem na Argentina e no Chile são os que menos horas do dia terão que jejuar pelo Ramadã neste ano, enquanto os de Noruega, Suécia e Finlândia, por outro lado, cumprirão o ritual por 20 horas.

Isso porque as horas de sol não são as mesmas nos hemisférios norte e sul, e em pleno solstício de verão - para o qual só faltam 13 dias - o sol quase não se porá nos países próximos ao círculo polar ártico, mas estará oculto mais de 12 horas no Cone Sul.

As datas do Ramadã são móveis porque os meses muçulmanos são regidos por um calendário lunar, que a cada ano é antecipado em dez dias com relação ao calendário solar universal. Isso significa que, dentro de 18 anos, os árabes celebrarão o Ramadã em pleno inverno, e daqui a 36, de novo no verão.

Há 36 anos, quando o Ramadã também caiu neste período, o debate sobre as horas de jejum era quase simbólico. Na época, a população muçulmana se concentrava em seus territórios "tradicionais" do norte e centro da África, do subcontinente indiano e do sudeste da Ásia.

No entanto, as emigrações deram uma nova cara ao mundo, e muitos dos recém-chegados a países de tradição cristã são muçulmanos vindos de países em guerra (Afeganistão, Iraque, Síria ou Somália), ou fugindo da repressão e da pobreza.

Não é casual que proliferem na internet sites com vários tipos de "máquinas de calcular de oração" que ajudam o crente a saber quando deve jejuar em cada momento do ano e em cada lugar da terra atendendo às horas nas quais o sol sai ou se esconde, que são os limites do jejum.

Se as comunidades muçulmanas de Chile e Uruguai são muito pequenas, na Argentina, por outro lado, há cerca de 700 mil muçulmanos, segundo estimativas da própria comunidade islâmica no país, e o jejum no país acontecerá neste ano de 6h30 a 17h50.

Como quase todos os muçulmanos de procedência libanesa, síria e palestina, os argentinos romperão o jejum com a relativa normalidade de um país onde a maioria professa outra religião e no qual a minoria está perfeitamente adaptada há várias gerações.

É no outro extremo do mundo, nos países nórdicos da Europa, onde o jejum será neste ano mais longo: em Oslo, Estocolmo e Helsinque, passará de 20 horas, e o sol só desaparecerá durante quatro horas, nas quais será preciso comer, beber, rezar, reunir-se e dormir.

Há tempos que as populações muçulmanas nestes países não são um mero detalhe: na Suécia, durante anos o país mais generoso da Europa com sua política de asilo, vivem entre 450 mil e 500 mil muçulmanos (3% da população). Na Noruega, são 163 mil.

Nos últimos anos, as comunidades muçulmanas da região escandinava buscam o melhor modo de cumprir os preceitos, levando em conta que são países muito extensos nos quais nas partes mais próximas ao círculo polar ártico o sol mal se põe.

É o caso de Tromsoe, na Noruega, onde fica a que talvez seja a mesquita construída mais ao norte no mundo todo, e seus fiéis sequer dispõem das quatro horas de noite que seus concidadãos têm em Oslo.

A Universidade de Al-Azhar, no Egito, uma das mais respeitadas como referência universal pelo islã sunita (seguido por 90% dos muçulmanos do mundo), recebeu em 2010 uma consulta da mesquita de Gotemburgo, na Suécia, para abordar a questão desse jejum interminável.

Os sábios de Al-Azhar emitiram então uma fatwa na qual autorizaram os muçulmanos dos países escandinavos a se alinharem com as horas de jejum em Meca, o centro do mundo muçulmano, e jejuar o mesmo número de horas que os sauditas.

Para isso, os sábios invocaram o texto do Corão que diz: "Alá não impõe sobre as almas mais do que aquilo que são capazes".

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