Legalização do aborto, um debate fora da agenda que divide a Argentina

Cris Tercero.

Buenos Aires, 18 jun (EFE).- Aborto legal, sim ou não? Essa é uma das grandes questões que dividem os argentinos em um debate que vai além dos governos e continua a ser resolvido mais nas ruas do que em consultas médicas ou escritórios políticos.

"Tudo o que você quiser saber sobre como fazer um aborto com remédios de forma segura e em casa" é a mensagem que, com um desenho colorido, pode ser encontrada em bairros de Buenos Aires.

Trata-se de uma iniciativa da Nuevo Encuentro - cisão política ligada ao kirchnerismo - que há três anos oferece aconselhamento sobre interrupção da gravidez com remédios.

Seu objetivo: "tirar do armário, não paternalizar" as mulheres, nem "transmitir o peso" que a sociedade coloca sobre este tema, disse à Agência Efe Emelina Alonso, secretária de Gênero da Nuevo Encuentro na cidade de Buenos Aires.

Para a militante, os "mais de 500 mil abortos por ano" que são realizados na Argentina falam de uma "cotidianidade" que obriga a "não dramatizá-lo".

"O que fazemos é lhes transmitir, de acordo com um protocolo que nós mesmas nos demos, todos os dados básicos que tem que saber a pessoa que vai abortar" com medicamentos, explicou Alonso.

As militantes utilizam informação divulgada pelo Ministério da Saúde do governo argentino anterior e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para cumprir uma função "que os médicos têm a obrigação de fazer e infelizmente não fazem", afirmou Alonso.

A OMS explica o procedimento em um manual que adverte em suas primeiras páginas que se trata de um guia dirigido a quem "já tem o treinamento necessário para fazer um aborto seguro e/ou tratar as complicações de um aborto inseguro", razão pela qual "não é um substituto para capacitação formal, nem um manual de treinamento".

Estas iniciativas proliferam majoritariamente em países como a Argentina, onde atualmente o aborto é ilegal, salvo para casos em que a saúde da mãe está em risco ou se a gravidez tiver sido provocada por um estupro.

Recentemente, a polícia federal da Argentina desarticulou uma organização dedicada a praticar abortos clandestinos na capital e na região metropolitana da capital argentina.

A organização captava as grávidas com folhetos sobre falsos consultórios nos quais pessoas sem conhecimentos médicos lhes forneciam medicamentos, obtidos de maneira ilegal, para provocar a saída do feto em troca de uma quantia em dinheiro.

Fontes do Ministério da Saúde argentino consultadas pela Agência Efe não quiseram fazer declarações sobre a linha que o novo governo seguirá a respeito deste tema.

Para Alonso, no entanto, nestes tipos de pastilhas, para as quais é necessária uma receita médica que muitas meninas conseguem "graças a médicos ou farmacêuticos conhecidas", estão todas as condições dadas para abortar em casa "além da lei penal".

"Nós dizemos que o aborto com Misoprostol - o princípio utilizado neste fármaco - não tem risco no sentido que se você conhece e sabe como deve usá-las corretamente, então não há riscos, porque sabe quando deve ir ao hospital e quando não", acrescentou Candela García, coordenadora de aconselhamento, convencida que a interrupção da gravidez deve ser uma questão individual.

Por sua vez, Samuel Seiref, presidente da Federação Argentina de Sociedades Ginecológicas e Obstetrícia, declarou à Efe que é preciso ter claro que este procedimento abortivo "produz contrações como um trabalho de parto", "dor" e "pode produzir uma hemorragia grande".

"Transmitir consenso neste momento é bastante complicado", comentou o médico, assegurando que a questão do aborto é "um problema mundial" e uma polêmica que enfrentam a cada dia em seus consultórios.

Para ele, o debate deve ser "muito amplo" e estar à frente de posturas extremas para chegar a um ponto de encontro em uma sociedade em contínua evolução.

María Marta Rodríguez, diretora de formação da entidade civil pró-vida Frente Jovem, disse à Efe que "a sociedade está certamente dividida" neste tema.

"Com a defesa da mulher se apregoa o aborto e, na realidade, a mulher precisa de saúde, acompanhamento e ter o básico coberto", detalhou Rodríguez, convicta de que "reduzir a mortalidade materna" vinculada à interrupção do aborto deve ser um objetivo para a Argentina e a maioria de países da América Latina.

O padre Bernardo Moreno, assessor espiritual nacional da Grávida, uma entidade vinculada à igreja Católica para a defesa da vida desde a concepção, disse à Efe que este tema não pode ser tratado com uma atitude "meramente principista".

"Se há uma mãe grávida que está em dificuldades com sua gravidez ou em crise é necessário acompanhá-la e ajudá-la a pensar para que vá crescendo a possibilidade de ter seu filho", acrescentou Moreno, que defende que "toda vida humana vai além de uma situação determinada".

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