Putin está irritado

José Antonio Vera.

São Petersburgo (Rússia), 18 jun (EFE).- O chefe do Kremlin está irritado, e se pode notar. Irritado e cansado. Mais um ano, e já se passaram três desde o primeiro, convidou-nos, os presidentes das maiores agências de notícias do mundo, para um encontro com ele, em pessoa, por ocasião do Fórum de São Petersburgo. Cansado, porque acumulava mais de 12 horas seguidas de reuniões e discursos, de cumprimentar pessoas e falar em diferentes palcos, e para a última reunião de todas, a que programou com as agências, chegou tão esgotado que até deixou sem perguntas, diretamente porque sim, meus colegas da "France Presse", da alemã "DPA" e da japonesa "Kyodo", nada menos.

E Putin está irritado por vários motivos. Em primeiro lugar, pela resolução que deixa o atletismo da Rússia fora das competições olímpicas do Rio de Janeiro. E ainda, provavelmente inclusive mais, pelo que ele chama de "corrida armamentista" dos americanos, que vai obrigar a seu país - avisou uma e outra vez - a modernizar ao máximo seu arsenal nuclear, por isso o mundo pode voltar a cair em uma situação inevitável de Guerra Fria, "se as tropas da Otan persistirem em se espalhar" por Polônia, Romênia e os demais países de sua fronteira.

E também está irritado, embora menos, porque é responsabilizado por todos os supostos males que acontecem no planeta, entre eles, por exemplo, o Brexit. Sobre este tema, Putin diz com clareza que o que não entende, nem ele nem quase ninguém, é como o primeiro-ministro britânico David Cameron, estando contra o referendo sobre a permanência ou saída do Reino Unido na União Europeia, teve a ideia de convocar a votação a respeito. E se pergunta com total clareza: "Para que iniciou este processo? Para chantagear a Europa outra vez? Qual é seu verdadeiro objetivo?".

Putin está cansado e irritado, sim, embora aparente amabilidade. Chegou ao nosso encontro com três horas de atraso (no ano passado foram cinco), impecavelmente usando terno azul-escuro e uma gravata grená amarronzada e sequer nos deu a mão, como das outras vezes. Sentou-se diretamente em sua cadeira e começou a falar e gesticular. Também não colocou no menu linguado da Crimeia, como há dois anos, mas caviar do Cáspio com chá preto, enquanto ele se serviu com chá branco com limão. Tudo no meio de uma parafernália impressionante de assessores, garçons, câmeras, fotógrafos e pessoas de seu séquito por todas as partes, em um cenário novo e moderno, inaugurado em função do Fórum Econômico de São Petersburgo deste ano.

Outro dos motivos do mal-estar de Putin é ser perguntado constantemente sobre a saúde da economia russa. Alguém disse que a Rússia está em crise? Em recessão está, pois neste ano a atividade econômica voltou a se contrair, embora menos do que o previsto: só 1,2% do PIB. Mas no Fórum de São Petersburgo quase não se notou a crise. Vieram mais empresas e multinacionais do que nunca, e foi aberto um espaço ultramoderno e megagigante para debates, apresentações e entrevistas coletivas, com muita aparelhagem eletrônica, entorno digital, tecnologia de vanguarda e, certamente, mármores, carpetes e madeiras de vários tipos.

Até foram visitar Putin líderes ocidentais como Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, e Matteo Renzi, primeiro-ministro da Itália, o que provocou a ira dos países bálticos e do núcleo duro da UE. Algo que não pareceu pesar para Renzi. Ele foi visto com o chefe do Kremlin, deram juntos uma entrevista coletiva e assinaram acordos de 1,3 milhão de euros, apesar de, em teoria, estar proibido de assinar convênios de qualquer tipo com os russos. O que parece pouco importar a Renzi, pois não só assinou esse pacto, como pediu o fim das sanções à Rússia. Algo que também foi feito, na véspera, pelo ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, que jantou com Putin e pediu que se deixe de punir Moscou.

Não chegou a tanto Juncker, apesar de surpreender o fato de o presidente da Comissão Europeia ter dado respaldo ao presidente russo com sua presença em São Petersburgo. Juncker e também o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que apareceu por lá para falar no Fórum e debater com Putin as questões da Síria e do terrorismo mundial.

Foram tantas atividades e tantos discursos que, quando o relógio bateu meia-noite e cinco, o líder russo decidiu não se alongar e dar por encerrada sua jornada e deixar sem perguntas vários dos presidentes das agências que tinham ido a São Petersburgo para lhe fazer perguntas e ouvi-lo. Coisas da vida. E de Putin.

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