Putin não entende o que Cameron buscava ao convocar consulta sobre o "Brexit"

José Antonio Vera e Virginia Hebrero.

São Petersburgo (Rússia), 18 jun (EFE).- O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse na noite de sexta-feira que não entende por que o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, decidiu realizar o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), em uma entrevista aos presidentes das principais agências de notícias do mundo, entre elas a Agência Efe.

"Para que (Cameron) iniciou este processo de votação? E o fez para quê? Para chantagear outra vez a Europa? Para assustar alguém? Que objetivo tinha se era contra (o Brexit)?", questionou Putin no encontro, realizado em São Petersburgo.

Em qualquer caso, o presidente russo afirmou que o Brexit "não é um assunto" da Rússia e que não queria opinar, mas destacou que o importante é que os cidadãos que votarem o façam "bem informados e conhecendo as consequências" de uma eventual saída do Reino Unido da UE.

Putin assegurou que, apesar de a Rússia se culpada com frequência de tudo o que ocorre, seu país não tem nenhuma responsabilidade na convocação da consulta do próximo dia 23.

O presidente russo, que apareceu visivelmente cansado perto da meia-noite, após uma longa jornada de encontros no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, avisou, por outro lado, que a Rússia obteve conquistas importantes na modernização e no desenvolvimento de suas forças nucleares.

"Advertimos que iríamos fazê-lo, dissemos e o fizemos. Posso lhes garantir que conseguimos grandes avanços (no campo do armamento nuclear)", afirmou Putin, e acrescentou que só desta maneira, modernizando e desenvolvendo suas forças nucleares, "se pode conservar o equilíbrio estratégico no mundo".

O presidente russo alertou que a ativação do escudo antimísseis dos Estados Unidos na Europa, em particular na Romênia, representa um grande perigo para a Rússia e a segurança europeias.

"A ameaça (nuclear iraniana) não existe, mas o escudo antimísseis continua sendo montado na Europa. Isto quer dizer que nós tínhamos razão quando dizíamos que nos enganavam, que não eram sinceros conosco", ressaltou.

Putin também disse que não quer "renhir nem culpar ninguém", mas que quando os Estados Unidos saíram unilateralmente do tratado de redução de armas nucleares, este "foi o primeiro golpe na estabilidade mundial pela perspectiva de uma ruptura do equilíbrio de forças".

"Não vou enumerar tudo, mas modernizamos nossos complexos e desenvolvemos com sucesso novas gerações" de armamentos nucleares ofensivos, afirmou.

O presidente russo lançou uma advertência. "Arrastamos o mundo em direção a uma nova dimensão. Porque continuam com o escudo (antimísseis). E sei, com segurança, que nós nos veremos obrigados a responder. E sei de antemão que vão nos acusar de comportamento agressivo, apesar de só ser uma resposta", destacou.

Putin falou ainda sobre as eleições deste ano nos EUA e, questionado se preferiria ver na Casa Branca Hillary Clinton ou Donald Trump, disse que trabalhará "com quem quer que seja eleito presidente, independentemente da retórica eleitoral".

"Seja qual for a retórica eleitoral, vamos julgar não pelas palavras, mas pelas ações de quem for eleito presidente dos Estados Unidos. E buscaremos vias para normalizar as relações no âmbito da economia e da segurança", afirmou.

Sobre as eleições do dia 26 na Espanha, Putin disse que não tem "nenhuma preferência".

"Trabalharemos com todos os partidos e com qualquer líder (que ganhar as eleições)", declarou.

Em relação ao dilema migratório vivido pela Europa, o líder russo afirmou que há dez anos alertou os responsáveis europeus sobre o perigo das políticas de imigração realizadas por eles.

"Um país deve aceitar apenas o número de estrangeiros que podem se adaptar às condições locais do mercado de trabalho, e que se adaptem à língua e às tradições culturais", afirmou o presidente russo, que também ressaltou que "muita gente vive na Espanha por décadas sem falar espanhol".

Sobre a decisão da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF) de manter a exclusão dos atletas do país dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, adotada em Viena algumas horas antes, Putin revelou que a considera "injusta".

O chefe do Kremlin afirmou que as sanções por doping devem ser "personalizadas" e que "não se pode punir toda a família pelo crime de um de seus membros". Além disso, ressaltou que a decisão da IAAF "não se encaixa em nenhum marco de conduta civilizada".

"Confio que acharemos uma solução, e isto não significa, de modo algum, que tenhamos a intenção de nos ofender e de dizer que não vamos lutar mais contra o doping. Pelo contrário, fortaleceremos a luta contra o doping", acrescentou.

Já sobre as questões econômicas da Rússia, o presidente se referiu ao impacto da queda do preço do petróleo para o país e afirmou que planeja "seguir o caminho rumo à diversificação da economia para atrair investimentos".

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