Libertação ou desastre: as consequências econômicas do "Brexit"

Judith Mora.

Londres, 21 jun (EFE).- Os favoráveis à permanência na União Europeia (UE) e os adeptos ao "Brexit" (acrônimo em inglês para denominar a possível saída do Reino Unido do bloco) estão radicalmente em conflito por conta das eventuais consequências econômicas de abandonar o bloco comunitário, o que para alguns significaria um desastre e para outros uma libertação nacional.

A economia foi o principal tema da campanha do referendo de 23 de junho desde o início, em abril, e vários políticos, economistas e organizações globais discursaram para apresentar diferentes pontos de vista.

O grupo favorável à permanência, liderado pelo primeiro-ministro, o conservador David Cameron, contou com o apoio de líderes internacionais como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e organismos como o G7 (EUA, Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão e Reino Unido), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

No Reino Unido, o Banco da Inglaterra, a patronal de empresários CBI, a Prefeitura da City (distrito financeiro) e diversas multinacionais e bancos, como HSBC, UBS e Goldman Sachs, alertaram para a volatilidade nos mercados e as perdas para a economia que uma saída da UE causaria.

Os adeptos ao "Brexit", capitaneados pelo ex-prefeito de Londres, o conservador Boris Johnson, e que defendem a "libertação" do país das garras de Bruxelas, têm ao seu lado um grupo de economistas britânicos e empresários como Patrick Barbour, um de seus principais doadores.

Em uma campanha carente de mensagens positivas, o governo de Cameron, que oficialmente defende ficar em uma UE reformada, alertou que o Reino Unido enfrentará uma recessão caso decida sair do bloco comunitário.

O Ministério da Economia britânico calcula que o Produto Interno Bruto (PIB) cairia 6% até 2018 caso o Reino Unido saia do mercado único e se submeta às normas da Organização Mundial do Comércio (OMT), com uma queda de 18% do preço da propriedade imobiliária e a perda de 820 mil empregos.

Em uma tentativa de mobilizar a classe média, Cameron avisou que as hipotecas também aumentariam, devido ao previsível aumento das taxas de juros, enquanto a provável queda da libra esterlina "encareceria as férias na Espanha".

As classes mais desfavorecidas foram alertadas que uma saída da UE traria "mais anos de austeridade", pela necessidade de compensar a prevista queda do PIB, e os aposentados - que são propensos ao "Brexit" - veriam "afetadas suas pensões" pelas perdas dos fundos de investimento privados.

Johnson e o ministro da Justiça britânico, Michael Gove, imaginaram um cenário fora da UE com "liberdade e independência", mais soberania e capacidade para comercializar e controlar as fronteiras.

Gove propôs deixar o mercado único e operar na Associação Europeia de Livre-Comércio (AELC), com países como Noruega e Suíça, assim como seriam negociados novos tratados comerciais com Índia e China ou com o próprio bloco europeu, como fez o Canadá.

O problema para lado do "Brexit" é que o presidente da Comissão Europeia (CE), Jean-Claude Juncker, já advertiu que os países-membros não receberiam de braços abertos "os desertores", e Obama disse que um Reino Unido alheio à Europa estaria "no último lugar" de suas prioridades negociadoras.

O diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, avisou que deixar a União Europeia aumentaria os custos tarifários sobre as exportações e importações, com o conseguinte aumento do custo da vida para os britânicos.

O maior passo em falso para os favoráveis à saída foi proclamar com estardalhaço que o Reino Unido entrega semanalmente 350 milhões de libras a Bruxelas, que poderiam investidas em novos hospitais ou escolas.

Vários organismos públicos, inclusive a Autoridade de Estatísticas do Reino Unido, desmentiram esse número e disseram que a contribuição britânica à UE ficaria quase na metade, se for computado o reembolso negociado na década dos anos 80 pela ex-primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher.

Entre essa mistura de argumentos e hipóteses, poucas certezas se destacam. O Reino Unido exporta 45% de seus bens e serviços à UE e a City, motor da economia nacional, baseia seu dinamismo no acesso ao mercado único e à livre circulação de trabalhadores.

Segundo um estudo da associação nacional de produtores rurais do Reino Unido (NFU na sigla em inglês), os agricultores britânicos perderiam 34 mil euros ao ano em subsídios com o "Brexit", mas uma saída beneficiaria alguns setores menos dependentes da Europa, como as explorações de aves e suínos.

Outra coisa clara é que o referendo já está desestabilizando a libra, que se desvalorizou quase 3% desde o início do ano e corre o risco de cair ainda mais em caso de cisão com o bloco.

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