Liderança de David Cameron é testada em referendo

Patricia Rodríguez.

Londres, 21 jun (EFE).- Seja qual for o resultado do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE), ele impactará significativamente no poder do político britânico, especialmente o de seu primeiro-ministro, David Cameron, cujo liderança "balançará" se o chamado "Brexit" (acrônimo para a saída do país do bloco) vencer, segundo os analistas.

A decisão dos britânicos do dia 23, quando votarão se querem continuar na União Europeia (UE) ou preferem se desligar do bloco, terá previsivelmente grandes repercussões políticas em qualquer dos dois possíveis cenários.

Hoje, as pesquisas apontam para resultados apertados, e os analistas concordam em que a participação popular na consulta será um "fator-chave" em seu desenlace.

O cenário que traria mais desafios políticos será o do "brexit", por se tratar de um "terreno desconhecido", segundo disse à Agência Efe o especialista em Política e UE da Universidade de Londres (UCL) Nick Wright.

Essa opção tornaria muito improvável que Cameron continuasse contra o governo e desencadearia uma luta pela liderança do partido "tory" (conservador) - já muito dividido - e, portanto, do Executivo.

Cameron foi justamente o político que se comprometeu a realizar a consulta se ganhasse com maioria as últimas eleições gerais de 2015, perante a crescente pressão do grupo mais eurocético de seu partido.

O primeiro-ministro, que coloca em jogo sua "reputação e legado", também não teria vida fácil se a permanência ganhar, perante a "árdua tarefa de tentar voltar a unir seu partido, a menos que houvesse uma vitória arrasadora a favor da continuidade".

Nesse cenário, haveria dúvidas sobre o futuro dos ministros do Gabinete que apoiaram o "Brexit" e haveria "uma tentativa de reintegrá-los em prol de reconstruir a unidade pós-referendo". No entanto, alguns - que se envolveriam mais na campanha contra a continuidade, como o titular de Justiça, Michael Gove - seriam "mais problemáticos".

No mês passado, o deputado "tory" Andrew Bridgen já tinha advertido que há "pelo menos 50" parlamentares muito descontentes com a campanha de Cameron, e que promoveriam uma moção de confiança contra o primeiro-ministro depois do referendo.

Outro personagem cujo destino é enigmático após o referendo é o ex-prefeito de Londres, o "tory" Boris Johnson, líder oficioso da campanha pela saída, cuja apaixonada participação "pró-Brexit" versou, segundo muitos analistas, sobre seu próprio posicionamento como sucessor de Cameron na ala da direita, sem importar o resultado.

Na opinião do citado analista, o midiático prefeito "não se preocupa particularmente com a Europa", pois, se ganhar a União, se apresentará como um sucessor popular, capaz de atrair os eleitores conservadores que foram para o eurofóbico UKIP.

Outros especialistas, como David Bailey, do Centro Acadêmico de Desenvolvimento School of Government and Society, da Universidade de Birmingham, acreditam que a saída traz mais "medo" perante o desconhecido que "consequências" reais.

Segundo Bailey, Cameron vai parecer "desafiador" se defender a permanência e "provavelmente enfrentará uma pressão considerável para renunciar e ser substituído por Boris Johnson se o 'Brexit' vencer".

Prevalecendo a campanha pela continuidade, a campanha política do ex-prefeito de Londres no Partido Conservador "estaria acabada, pelo menos durante vários anos" frente à outra opção, que poderia "elevá-lo a líder do partido".

O professor de Ciências Políticas e Estudos Internacionais da Universidade de Birmingham Peter Burnham afirmou que um dos aspectos "mais interessantes e menos debatidos" é o impacto que teria um "brexit" na unidade de Inglaterra, Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia.

Segundo sua opinião, a chefe de Governo escocesa, Nicola Sturgeon, "exigiria um novo referendo de independência nessa região", argumento que compartilharam na semana passada os ex-primeiros-ministros britânicos, o "tory" John Major e o trabalhista Tony Blair.

No atual debate também se cogitou o que vai acontecer com o Partido Trabalhista - percebido atualmente como uma legenda debilitada e dividida - e com seu líder, Jeremy Corbyn, reprovado por sua passividade e baixo perfil durante a campanha para defender a linha oficial dessa legenda a favor da permanência do Reino Unido na UE.

"Para os trabalhistas, será difícil viver com um voto pelo 'brexit', e possivelmente fariam campanha para uma renegociação e possivelmente outro referendo", segundo Bailey.

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