Um Reino Unido europeu, mas britânico em primeiro lugar

Rosa Jiménez.

Bruxelas, 21 jun (EFE).- O "cheque" britânico, a rejeição ao euro, as salvaguardas sociais. O Reino Unido sempre fez valer suas peculiaridades para proteger seus interesses em uma União Europeia (UE) cada vez mais integrada, um sentimento de isolamento que pode culminar na saída do sócio mais excêntrico do bloco.

"Temos a personalidade de uma nação insular: independente, franca, apaixonada em defender nossa soberania. Não podemos mudar essa sensibilidade britânica mais do que podemos drenar o Canal da Mancha. E, devido a essa sensibilidade, viemos à União Europeia com uma mentalidade que é mais prática que emocional", afirmou o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, em janeiro de 2013.

Uma declaração de intenções que pouco mais de três anos depois se materializaria na convocação de um referendo para dizer "sim" ou "não" a uma Europa da qual Cameron arrancou em uma cúpula em fevereiro as últimas concessões a seu membro mais rebelde.

Com a chegada de Londres à Comunidade Econômica Europeia (CEE) em 1973, quando os alicerces do bloco já eram sólidos e o eixo franco-alemão liderava com força os ideais de integração europeia, surgiu um pragmatismo diante das decisões procedentes de Bruxelas que muitos consideraram um bloqueio ao projeto comum.

Os dois vetos a sua adesão impostos nos anos 1970 pelo presidente francês, Charles de Gaulle, que argumentava que "a Grã-Bretanha já não era grande coisa", marcavam as distâncias continentais perante a chegada de uma economia que necessitaria de apoio urgente, lembrou Stephen Wall, antigo assessor do ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, ao European Policy Center (EPC).

Após a entrada britânica, os trabalhistas chegaram ao poder já prometendo um referendo sobre a saída - realizado em 1975 e no qual ganhou o sim à permanência - com o qual conseguiram vantagens orçamentárias.

Com a chegada ao governo britânico da conservadora Margaret Thatcher (1979-1990) e suas reformas econômicas, os ataques aos princípios vitais da CEE pareceram alcançar um clímax em seu famoso discurso de 1988 em Bruges (Bélgica), apesar de a "Dama de Ferro" nunca ter considerado a saída do Reino Unido das políticas centrais da União, segundo esse analista.

Thatcher foi firme defensora do mercado único, uma das metas pelas quais mais sempre trabalhou o Reino Unido, que teve também um papel destacado na política externa e comercial comunitária assim como ao apoiar adesões posteriores.

Em paralelo, foi a responsável por negociar em 1984 uma das principais concessões que o Reino Unido mantém frente aos demais sócios: o "cheque" britânico, a compensação que a UE devolve a esse país ao fazer valer o pouco benefício para seu pequeno setor agrário da mastodôntica Política Agrícola Comum, que ainda absorve a maior parte do orçamento comunitário.

O Reino Unido também se orgulha de sua insularidade ao manter-se fora do espaço sem fronteiras Schengen e de acolher-se a cláusulas de exclusão voluntária quanto à adoção do euro como moeda comum, a política comunitária de asilo e assuntos de Justiça e Interior, disse à Agência Efe o analista político Pawel Swidlicki, do centro de estudos Open Europe.

Os britânicos gozam ainda de um protocolo na Carta de Direitos Fundamentais da UE que explicita sua limitação às leis nacionais existentes, e se mantiveram fora do Protocolo Social adjunto ao Tratado de Maastricht de 1992 até que Blair o incorporou.

Na opinião do analista sênior do German Marshall Fund dos Estados Unidos, Michael Leigh, é "enganoso" pensar que o Reino Unido é o único país que procura um "tratamento especial".

Embora teoricamente todos os países devam adotar o euro quando estiverem prontos, Suécia e Polônia asseguram que não pensam em incorporá-lo e tanto o Reino Unido como a Dinamarca têm cláusulas de exclusão.

Nessa linha, o Reino Unido e a Irlanda se excluem formalmente de Schengen enquanto Bulgária, Croácia, Chipre e Romênia ainda não participam completamente dele, indicou à Efe Leigh, que ressaltou que a Polônia igualmente mantém uma posição diferenciada perante a Carta de Direitos Fundamentais.

O Reino Unido simplesmente "é mais franco que outros na defesa de seus interesses quando se sente ameaçado por iniciativas de Bruxelas", considerou Leigh.

Para fazer campanha a favor da permanência, Cameron obteve em fevereiro novas concessões para dispor de um "freio de emergência" no acesso a benefícios sociais de trabalhadores comunitários ou para manter-se à margem de uma União cada vez mais integrada.

O diretor-executivo e economista-chefe do programa de Política Econômica da Europa do EPC, Fabian Zuleeg, declarou à Efe que o obtido pelo Reino Unido era "o mínimo necessário", embora um alto funcionário comunitário tenha deixado claro que "o acordo do Conselho Europeu de fevereiro é o que há e não haverá mais".

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