Busca por desaparecidos, um reflexo da ineficácia da Procuradoria mexicana

Martí Quintana

Iguala (México), 29 jun (EFE).- Em um país com milhares de mortos e mais de 27 mil desaparecidos, a Procuradoria mexicana foi questionada em várias ocasiões dentro e fora da nação por sonoros erros em suas diligências em tragédias como o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa, que completou 21 meses neste domingo.

As irregularidades, e uma aparente falta de profissionalismo e interesse, foram constatadas pela Agência Efe em um percurso junto à entidade Los Otros Desaparecidos de Iguala, que há quase dois anos percorre os montes do violento estado de Guerrero buscando fossas onde possam estar enterrados seus parentes desaparecidos.

A comitiva era formada por 20 parentes de desaparecidos, observadores da Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) e a ONU-DH, oito policiais federais, um agente do Ministério Público (Procuradoria Geral), seu ajudante, e três peritos da organização; um de criminalística, um de vídeo e outro de fotografia.

Para não contaminar a cena do crime, são os membros da Procuradoria Geral que realizam as investigações pertinentes, desde destampar a possível fossa até documentar e examinar os achados.

No percurso com a Agência Efe, os elementos da Procuradoria Geral da República (PGR) não traziam dois elementos básicos: a picareta e a pá.

Segundo contaram desde o coletivo, a Procuradoria está acostumada com o fato da associação levar "quebra-galhos" de busca, por isso que é habitual que o órgão governamental não traga suas próprias ferramentas.

No final, o fato, que atrasou a busca em uma hora, foi solucionado depois que uma integrante do grupo que procura seu marido buscou suas próprias ferramentas.

"Na busca por desaparecidos, os familiares são a locomotiva e a Procuradoria o vagão", disse à Agência Efe um observador da CNDH presente na cena.

Para piorar a situação, naquele dia o agente do Ministério Público chegou cerca de 30 minutos atrasado ao local de encontro de todos os parentes, e os peritos demoraram ainda mais.

Faltou inclusive o perito em antropologia -encarregado de identificar os ossos- e o agente da Procuradoria se desculpou. "É a primeira vez em um ano e oito meses que isto ocorre".

Para Mario Vergara, fundador deste coletivo, é um exemplo de que o governo "atravanca" e faz "puras simulações".

"Não interessa para eles desenterrar o horror", disse este rastreador de ossos, com um irmão taxista desaparecido, após apontar a casa onde a cada domingo se repete a mesma cena.

Em um ano este coletivo encontrou 145 corpos e mais de 500 restos humanos. A Procuradoria identificou somente 17, segundo dados da entidade.

A teor de outros fatos que vieram à tona, cenas similares poderiam se repetir ao longo do território.

O último relatório do grupo de especialistas da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) que investigou o desaparecimento dos 43 jovens em 26 de setembro de 2014 denunciou irregularidades no rio San Juan, onde foi encontrada uma bolsa com restos ósseos que permitiu a identificação de um dos jovens.

Segundo o expediente oficial, mergulhadores da Marinha a encontraram no dia 29 de outubro, mas uma foto mostra uma bolsa com restos ósseos etiquetada um dia antes.

Além disso, legistas argentinos que participaram do caso advertiram que não tinham sido testemunhas do achado e quando chegaram ao local, a bolsa já tinha sido aberta.

Este detalhe é muito relevante, pois esta identificação é a única prova científica de que um dos 43 jovens foi carbonizados, como sustenta a muito questionada versão da Procuradoria.

O diretor da Agência de Investigação Criminal (AIC), Tomás Zerón, atribuiu a mudança de datas a um erro do perito responsável, tanto que os especialistas da CIDH o acusaram de atuar fora dos "padrões mínimos internacionais" e de "dar as costas" os fatos.

Este fato foi encerrado com um anúncio da Procuradoria de que abriria uma investigação para detectar possíveis irregularidades, cujos resultados ainda são desconhecidos.

A ambos fatos podem ser acrescentados outros casos que põem seriamente em dúvida a capacidade da Procuradoria.

Apesar de não ter a ver com a busca de desaparecidos, em maio um juiz federal desprezou os elementos de prova apresentados pela PGR e ordenou a libertação dos três últimos militares envolvidos na morte de 22 civis no município de Tlatlaya em 2014, no central Estado do México.

De acordo com a própria Procuradoria, 14 pessoas morreram no enfrentamento e as oito restantes, algumas feridas, foram assassinadas pelos militares.

No entanto, esta instituição foi incapaz de provar perante um juiz a participação de sete militares.

Em outubro, foram libertados outros quatro, pois o juiz considerou que a PGR não tinha sido clara na hora de explicar os fatos pelos quais eram acusados.

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