A díficil missão de nascer e viver sob bloqueio em Gaza

Saud Abu Ramadan.

Cidade de Gaza, 30 jun (EFE).- Quando três milícias da Faixa de Gaza capturaram há uma década o cabo israelense Gilad Shalit em uma incursão além da fronteira, 1,5 mil crianças nasciam no território, que hoje têm dez anos e só conhecem a miséria como consequência das restrições e do bloqueio.

O pequeno Saleh al Kheisi nasceu no bairro de Al Shuyaia, no leste da Faixa, em 2006, ano que marcou a virada na história do conflito palestino-israelense devido à captura do soldado, libertado cinco anos depois em uma troca de prisioneiros entre Hamas e Israel, que encarcerou mil palestinos.

Há uma década Israel e a comunidade internacional iniciaram uma série de restrições ao enclave palestino depois da vitória eleitoral dos islamitas, que rejeitaram reconhecer os requerimentos internacionais, situação que piorou após a captura do uniformizado israelense.

Um ano depois, em 2007, o grupo islamita Hamas tomou o controle de fato de Gaza após expulsar as forças leais ao presidente, Mahmoud Abbas, e Israel considerou o enclave "entidade hostil", fechou as passagens fronteiriças e impôs um ferrenho bloqueio que deixou o território na pobreza.

Al Kheisi viveu três guerras que deixaram transtornos psicológicos como pesadelos e incontinência urinária.

"(Os israelenses) destruíram minha casa e meu quarto, quero recuperar meus brinquedos porque gosto de brincar", disse o menino.

No final de 2008, Israel lançou uma operação militar, na qual "Chumbo Fundido" morreram cerca de 1,5 mil palestinos e 13 israelenses; em 2012 a operação "Pilar Defensivo" matou 180 palestinos e seis israelenses, e em 2014 a operação "Limite Protetor" foi a mais devastadora e tirou a vida de 2,2 mil palestinos e 73 israelenses.

Todas as incursões tiveram como alvo conter o disparo de foguetes por parte de milícias palestinas em direção a solo israelense, e a mais recente acabar com uma infraestrutura de túneis usados com caráter ofensivo.

"Em cada guerra fugi da minha casa com minha esposa e filhos, ficávamos em casas de parentes e amigos e quando terminava, voltávamos. Em a cada guerra nosso lar foi danificado, mas na última a casa foi completamente destruída", relatou o pai de Saleh, Amjad al Kheisi.

O homem trabalhava até 2003 no setor da construção em Israel, momento no qual as autoridades israelenses lhe disseram que não trabalharia mais com eles por razões de segurança.

"Continuei trabalhando em Gaza até o sequestro de Gilad Shalit, depois as fronteiras e os cruzamentos fecharam e não foi permitida a entrada de materiais de construção", acrescentou Amjad.

Nos últimos anos, Israel aliviou levemente as restrições após pressões internacionais, embora controle com especial cautela a entrada de materiais de duplo uso, ou seja, que possam servir para a construção de túneis ou armas.

Ami Shaked, diretor do posto de fronteira de Kerem Shalom, no extremo sul de Gaza com Israel, explicou que a razão do aumento do número de mercadorias que entram na Faixa - 800 caminhões diários - se deve ao fechamento da fronteira por parte do Egito desde 2013.

"Agora Israel controla 100% de tudo o que entra em Gaza, gostemos ou não", explicou recentemente a um grupo de jornalistas internacionais.

O bloqueio mantido por Israel, o fechamento quase contínuo do terminal de Rafah, única fronteira com o Egito, e as divisões internas palestinas agravam ainda mais a situação.

O porta-voz de mídia da Agência das Nações Unidas para os refugiados palestinos (UNRWA) em Gaza, Adnan Abu Hasna, considera que nos últimos dez anos a situação humana em Gaza foi de mal em pior.

"As taxas de desemprego devido ao bloqueio israelense aumentaram gradualmente de 25% antes de 2006 para 45% atual e a pobreza chegou a mais de 50%", explicou à Efe.

Desde a última ofensiva israelense em 2014, "cerca de 80% da população recebe ajuda humanitária", comentou Hasna.

Na casa de Kheisi é preciso alimentar dez filhos, portanto a família se apoia na ajuda de organizações internacionais, das quais recebem 50 quilos de farinha por mês e 1.800 shekels (US$ 470) a cada trimestre.

"Não queremos só comida e dinheiro, o que queremos é poder reconstruir nossa casa e sermos capazes de proporcionar a nossos filhos uma vida melhor", lamentou a mãe da família, Somaya al Kheisi.

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