Os excessos e tentações do mês sagrado do Ramadã

Francesca Cicardi.

Cairo, 2 jul (EFE).- Apesar de o Ramadã ser considerado um período de jejum, purificação e sacrifício, são muitos os muçulmanos que caem na tentação de ingerir grandes quantidades de comida após um longo dia sem comer nada, um hábito tão prejudicial para a saúde como reprovado pelos centros religiosos.

A tradição estabelece que o jejum deve ser quebrado depois do pôr do sol, comendo tâmaras e tomando um copo de leite, mas a este "aperitivo" lhe segue, em muitos casos, um longo cardápio que inclui pratos e alimentos muito pesados, coroados pelos doces típicos, no Egito banhados em mel e manteiga, e frutos secos.

O "banquete" causa problemas gastrintestinais frequentes e, além disso, do ponto de vista religioso não é bem-visto regalar-se nas horas noturnas, quando - segundo o Corão - os muçulmanos já podem comer, beber, fumar e manter relações sexuais.

Um xeque de Dar al Iftaa, principal autoridade egípcia encarregada de emitir éditos religiosos, explicou à Agência Efe que o Islã aconselha a moderação em todos os aspectos da vida e rejeita os extremos, também na mesa.

Hassan Mohammed assegurou que inclusive o livro sagrado do Islã pede aos fiéis para comer e beber "sem se exceder" porque "Deus não ama os que se excedem", e os que o fazem são considerados inclusive "irmãos de Satanás".

O próprio profeta Maomé disse que a ação mais má do ser humano é "encher seu estômago todo", acrescentou o especialista em religião, segundo o qual os muçulmanos devem seguir o exemplo do profeta e de seus discípulos para não ter problemas digestivos ou de peso durante o Ramadã.

Apesar dos conselhos dos religiosos, aos quais nestas datas se somam os de vários meios de comunicação, são muitos os egípcios que, após um mês de copiosos "iftar" (refeição com a qual se quebra o jejum) e "suhur" (última refeição antes do amanhecer), precisam de uma dieta de desintoxicação para perder os quilos a mais e reajustar seus hábitos alimentares.

Este é o caso de Nura, uma jovem mãe que assegurou à Efe que sempre engorda alguns quilos durante o mês do Ramadã, porque só come à noite e não realiza muita atividade durante o dia.

"Ingiro muito mais açúcar que de costume, sobretudo sucos doces de fruta para me hidratar", explicou, antes de acrescentar que considera normal engordar, já que ingere a comida que corresponde ao dia todo em poucas horas, e sobretudo antes de dormir.

Nura assegura que depois do Ramadã costuma retornar a seu peso, enquanto que retoma sua rotina habitual, embora destaque que isto representa um problema porque sofre de tireoidismo e tem tendência a engordar.

Para evitar ganhar peso e se manter em forma, alguns egípcios optam por não deixar de praticar esporte, embora o façam em horários determinados e com precaução para não se desidratarem, sobretudo agora quando o mês sagrado coincidiu com as altas temperaturas do verão no Oriente Médio.

Os momentos mais propícios para o exercício físico costumam ser antes do "iftar", porque pouco depois pode-se repor líquidos, ou algumas horas depois do mesmo, após ter descansado da refeição, e tanto em quadras como em outros estabelecimentos os horários se adaptam neste sentido.

Os fiéis também dispõem este ano de um aplicativo para celular que, com o nome "desafio fitness do Ramadã", oferece um programa personalizado de exercícios, que variam a cada dia à medida que avança o mês sagrado, com o objetivo de chegar no final do mesmo em boa forma física.

Uma nutricionista europeia que oferece dietas e programas detox no Cairo explicou à Efe que cada vez mais egípcios estão conscientes de que não é saudável ingerir tanta comida ao cair a noite e que são muitos os que repensam esta "tradição".

"Estamos falando das pessoas mais educadas e das classes mais altas, que se preocupam com a saúde e aspecto", especifica o especialista, que prefere manter o anonimato.

Também afirma que são muitos os que começam a sofrer de problemas e a não se sentir bem depois da segunda ou terceira semana do Ramadã, devido aos maus hábitos, porque este mês "não é absolutamente um mês de desintoxicação", ressaltou.

Sem dúvida, o mais "perigoso" do Ramadã são os doces, essa tentação na qual todos caem em algum momento, sobretudo durante as comemorações familiares, quando os muçulmanos se reúnem ao redor da mesa, como ocorre em Natal no Ocidente.

Os egípcios consomem nestas datas "montanhas" de doces típicos, como o ataif (fatias fritas e banhadas em mel, às vezes recheadas) e a kunafa (torta de massa crocante com xarope e recheada de queijo), além de frutos secos e frutas desidratadas.

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