Porta-bandeira do Chile nos Jogos do Rio revela que foi abusada por padrasto

Santiago do Chile, 2 jul (EFE).- Escolhida por voto popular para ser a porta-bandeira do Chile nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, a maratonista Érika Oliveira revelou que foi abusada sexualmente e estuprada por seu padrasto, um pastor evangélico, entre os 5 e os 17 anos.

"Devia ter cinco anos a primeira vez que ele abusou de mim", disse a atleta, de 40 anos, em entrevista publicada hoje pela revista "Sábado", do jornal "El Mercurio", que disputará no Rio de Janeiro a quinta edição dos Jogos Olímpicos.

"O quarto estava com um papel de parede vermelho, ele mesmo tinha instalado. Começou me mostrando isso, como um jogo, com carícias e depois foi avançando. Essa primeira vez não entendi o que ocorreu. Era uma menina, não entendia nada", disse Érika.

"Ele sempre dizia que ninguém tinha que saber. Ocorreu outras várias vezes e depois fomos a Puente Alto (município vizinho a Santiago). Eu estava feliz. Achava que iríamos a uma casa sólida, com mais vizinhos, e isso acabaria. Mas aí continuou pior", revelou.

Os abusos, segundo a atleta, ocorriam às segundas-feiras, quando sua mãe saía para participar de atividades da Igreja Evangélica. "Era o dia mais horrível. Me lembro de estar caminhando perdida em direção à porta de casa. Tinha que chegar e aceitar. Enquanto eu não pude me defender, ele fazia o que queria comigo", contou Érika.

As declarações da atleta foram confirmadas por Felipe, um de seus irmãos. "Foi difícil crescer assim, vendo isso, porque todos nos dávamos conta. Ele se trancava com a Érika e sabíamos o que ocorria ela. Éramos meninos, mas devíamos fazer algo. Minha mãe sempre foi muito submissa a ele", disse.

Aos 12 anos, quando já começava a dar os primeiros passos no atletismo, Érika contou sobre os abusos para a mãe. O padrasto soube, sob ameaças, a obrigou a dizer que era mentira.

"Maior, quando já não podia me forçar tão facilmente, começou a funcionar como uma chantagem. Não tinha uma semana que não ocorria nada. Para ir para corrida ou sair para treinar, tinha que aceitar o que ele me dizia. Se impunha resistência, não havia dinheiro para nada na casa. Ele não passava dinheiro para minha mãe", afirmou.

Érika também contou à revista sobre o dia em que encarou seu padrasto. "Foi muito difícil, mas nunca me quebrei. Tive que perguntar quatro vezes a ele para que ele reconhecesse, na frente de seus filhos, que tinha me estuprado. A última, ele respondeu que sim, e saiu imediatamente da casa".

Desde então, a atleta não voltou a ver mais sua mãe, que junto foi viver junto com o padrasto em Pudahuel, que fica no outro extremo de Santiago.

A revista "Sábado" entrou em contato com o padrasto e a mãe de Érika, mas ambos se recusaram a comentar a denúncia.

No último dia 21 de junho, Érika recebeu das mãos da presidente do Chile, Michelle Bachelet, a bandeira que levará na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2016. Dois dias depois, a atleta foi a uma delegacia para apresentar uma denúncia contra seu padrasto, apesar de saber que será muito difícil conseguir uma condenação porque os crimes já prescreveram.

"Não posso fazer justiça com minhas próprias mãos, nem judicialmente. A única maneira de ter justiça que me resta é contar a verdade. Os segredos pesam muito", concluiu Érika, medalhista de ouro na maratona dos Jogos Pan-Americanos de Toronto, em 1999, e de bronze no de Santo Domingo, em 2003.

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