Comprar comida na Venezuela torna-se "trabalho de formiguinha"

Indira Guerrero.

Caracas, 5 jul (EFE).- A luz traseira de um caminhão que estaciona na frente de um depósito em um bairro de Caracas é o sinal para que muitas pessoas saiam de casa para fazer fila na porta da loja mesmo sem se saber com que mercadorias o estabelecimento será abastecido.

Economistas afirmam que na Venezuela, país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, é difícil determinar qual foi o nível de escassez e desabastecimento que permitiu a formação de um mercado paralelo que se serve da crise.

"Se você sair para procurar dez produtos básicos, só vai encontrar dois ou três", contou à Agência Efe o analista econômico Luis Oliveros para exemplificar o dado de que atualmente o país tem entre 70% e 80% de escassez.

Por lá, inclusive, um segundo idioma foi criado na hora das compras: o "bachaqueo". Essa é a forma como os venezuelanos chamam os revendedores de produtos básicos e comida - uma alusão a uma formiga operária que carrega suprimento de um lado para o outro -, artífices de um mercado negro muito mais bem abastecido que do que o formal.

Neste novo mercado existem o "bachaqueo", "o bachaquero", o ofício de "bachaquear" e o que Corina Escobar, uma dona de casa do interior do país, chama de "preço de bachaquero", um lucrativo trabalho fortalecido pela escassez venezuelana.

Yuli, manicure de 24 anos, não foi trabalhar hoje em um exclusivo shopping do leste de Caracas onde atende porque ontem à noite decidiu ir de madrugada com amigos ao mercado esperar a porta abrir e comprar quantos produtos pudesse "bachaquear".

Ela ficou sete horas na fila e, quando o caminhão de mercadoria descarregou, os produtos na loja foi uma das primeiras a entrar. Naquele dia, o mercado só recebeu desodorante, shampoo e creme de barbear e, segundo as regras, apenas dois artigos de cada são vendidos por pessoa.

Mas, para Yuli, isso é o suficiente para repassar um combo a um colega de trabalho por 20 mil bolívares (cerca de R$ 6.500), dez vezes mais do que ela pagou na loja, um ganho que equivale ao que conseguiria se tivesse feito as unhas de 40 clientes.

No entanto, a jovem, que voltará para casa para dormir por um dia inteiro para se recuperar da exaustão que é ficar na porta do supermercado, não poderá repetir a operação até a próxima sexta-feira. É que esse é o único dia da semana em que os comércios podem vender produtos regulados às pessoas que têm identidades com o final 0 ou 9. Na segunda-feira irão as que têm o documento terminando em 1 ou 2, na terça-feira 3 ou 4, na quarta-feira 5 ou 6, e na quinta-feira 7 ou 8.

Quanto maior é a loja, maior é a fila que se forma todas as amanhã na porta e que às vezes começa na noite anterior para quem quer garantir ser o primeiro a entrar. Uma rotina que tira todas as pessoas de seus escritórios pelo menos um dia por semana para poder comprar o que o caminhão trouxe.

No caso do motorista de Richard Rodríguez, de 38 anos, não é "tão difícil" porque sua esposa tem o direito de ir as quartas-feiras e ele, as quintas, logo as compras podem ser mais completas, mas isso não acontece sempre.

"Às vezes ela vai, e o que tem é macarrão. Eu volto no dia seguinte para comprar algo mais, e continuam vendendo só macarrão", contou.

"Então comemos só macarrão. Fazer o quê?", questionou.

Diariamente, os barulhentos caminhões vão aos mercados chamando uma multidão às portas ou acalmando aqueles que já estão lá desde o dia anterior esperando as mercadorias serem descarregadas - e que os funcionários nem chegam a colocar nas prateleiras. Afinal de contas, em poucas horas já não restará nada à venda.

As pessoas entram como uma onda pegando o que podem, ainda que não precisem, porque talvez algum vizinho possa precisar, e então uma troca é feita.

Intactos ficam os corredores de produtos importados e de luxo, que apenas alguns poucos venezuelanos mais endinheirados podem comprar e para quem o barulho dos caminhões ainda não se tornou um sonoro - porém aliviador - alarme.

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