Execuções cometidas pela polícia comprometem a segurança no Rio, aponta ONG

Rio de Janeiro, 7 jul (EFE).- As "execuções extrajudiciais" cometidas pela polícia no estado do Rio de Janeiro constituem um "obstáculo para a segurança", segundo um relatório da ONG Human Rights Watch (HRW) divulgado nesta quinta-feira, a um mês do início dos Jogos Olímpicos.

A organização defensora dos direitos humanos denuncia que a polícia do Rio de Janeiro matou mais de oito mil pessoas na última década, sendo 645 no ano passado e 322 entre janeiro e maio deste ano, e que muitas dessas mortes foram resultado de "execuções extrajudiciais".

O relatório "'O Bom Policial Tem Medo': Os Custos da Violência Policial no Rio de Janeiro" documenta como o uso ilegal da força policial contribuiu para o desmantelamento dos esforços do Estado para melhorar a segurança pública e adverte que o governo local "não fez o suficiente para resolver o problema das execuções extrajudiciais cometidas pela polícia".

Durante os supostos "confrontos" entre 2013 e 2015, o número de mortos pela polícia superou em cinco vezes o de feridos, o contrário do que deveria se esperar nessas situações, diz o relatório.

Segundo os dados da HRW, no ano passado, a cada agente morto em serviço no Rio, a polícia tirou a vida de quase 25 pessoas, mais que o dobro do sul da África e três vezes mais que nos Estados Unidos.

"O Rio de Janeiro enfrenta um problema sério de violência criminal, mas executar os suspeitos não é a solução. Essas execuções colocam as comunidades contra a polícia e comprometem a segurança de todos", afirma María Laura Canineu, diretora da organização no Brasil.

A Human Rights Watch encontrou "provas críveis" em 64 casos de policiais que tentaram encobrir seus crimes e que provocaram a morte de 116 pessoas, entre elas 21 crianças e adolescentes.

Quase todos os casos foram classificados como "confrontos", mas em pelo menos 20 as provas mostraram que as vítimas foram baleadas à queima-roupa e em outros foi comprovado que não houve tal enfrentamento.

A organização humannitária entrevistou mais de 30 policiais no Rio de Janeiro e pelo menos dois reconheceram ter participado de execuções.

Um deles, segundo o documento, reconheceu que um de seus colegas executou um suposto traficante de drogas que estava ferido no chão e outro descreveu uma operação organizada com o objetivo de matar, e não de prender, suspeitos de integrar grupos criminosos. Os policiais admitiram que não denunciam os crimes dos colegas por medo.

"(Eles) não pensariam um milésimo de segundo para me matar ou a minha família", disse um dos agentes entrevistados pela Human Rights Watch.

Além disso, os agentes envolvidos neste tipo de casos encobrem seu comportamento, intimidam testemunhas, colocam armas ou drogas nas vítimas, removem os corpos da cena do crime e inclusive os levam ao hospital para justificar que tentaram socorrê-los.

O impacto das execuções cometidas pela polícia não alcança apenas as vítimas e a seus parentes, mas também as próprias instituições de segurança.

"Essas mortes fomentam ciclos de violência que colocam em risco as vidas dos policiais que atuam em áreas com altos índices de criminalidade, destroem seu relacionamento com as comunidades e contribuem para elevados níveis de estresse, prejudicando sua capacidade de fazer bem o seu trabalho", denuncia a ONG.

Os policiais responsáveis por execuções raramente são levados à Justiça e as investigações internas são "infelizmente inadequadas", analisa o relatório.

O documento lembra que o governo brasileiro afirmou na candidatura para os Jogos Olímpicos que o evento atuaria como "um grande catalisador de melhoras a longo prazo nos sistemas de segurança do Rio de Janeiro.

A principal iniciativa em matéria de segurança, acrescenta, foi substituir as invasões militares nas favelas por uma polícia de "proximidade", as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Mesmo assim, o relatório critica a maneira como a medida é aplicada.

"Não se pode esperar que o policiamento de proximidade funcione quando a polícia continua a executar membros das comunidades que deveria proteger. Também não dá para esperar que policiais honestos tenham bom desempenho quando eles vivem em constante temor, não só com relação a membros de facções criminosas, como também dos próprios colegas policiais", comenta a diretora da organização.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos