Moradores de Juba começam a voltar para casa após dias de confrontos e saques

Atem Mabior.

Juba, 14 jul (EFE).- Os moradores de Juba, no Sudão do Sul, começam a voltar a seus lares após o cessar-fogo entre o exército do país e as forças leais ao vice-presidente, Riek Mashar, após vários dias de violência e saques nas ruas da capital.

Diversas pessoas relataram à Agência Efe que deixaram seus lares situados nos bairros de Gudele e Yabel, no oeste da cidade, onde ocorreram confrontos entre as duas facções militares, entre quinta-feira passada e a última segunda-feira.

Muitos dos que conseguiram retornar para suas casas nesta semana se deram conta de que elas tinham sido saqueadas.

"Vi a crueldade dos combates. Saímos no fogo cruzado. Meus filhos choravam de forma histérica e tive que ligar para um dos meus parentes para que nos tirasse dali", contou David Mayen.

Mayen e sua família se viram cercados pelos confrontos, e um conhecido no exército sul-sudanês teve que enviar uma patrulha para resgatá-los e levá-los a uma área mais segura no centro da cidade.

"O mais amargo é que, quando voltei para casa depois do cessar-fogo, a encontrei totalmente vazia. Roubaram tudo, é uma grande perda, mas dou graças a Deus porque continuamos vivos", acrescentou.

Por sua vez, Manyang Chol, que vive perto de uma base das tropas de Mashar em Yabel, classificou como "espantosas" as cenas de violência que presenciou enquanto fugia de seu bairro junto com sua esposa e seu filho.

Chol explicou à Efe que os disparos vinham de todas as partes e que, cada vez que eram ouvidos tiros, as pessoas se jogavam no chão e caminhavam coladas às paredes para não serem atingidas.

"É a primeira vez que vivo a guerra e o pânico, vi muita gente morrer diante dos meus olhos, pelos disparos e por acidentes causados pelo medo", contou.

A explosão de violência deixou pelo menos 300 mortos, segundo a apuração do governo, que levou em conta apenas o primeiro dia da crise.

Manasa Sebit, morador de Gudele, se refugiou no bairro vizinho de Guri e ainda não pôde retornar pra casa.

"Estamos hospedados em uma escola, não podemos voltar até que a situação se acalme de forma total. Não acredito no que dizem os políticos sobre o cessar-fogo", se queixou Sebit.

"Um dos meus parentes morreu ao atravessar Gudele. Os soldados o mataram enquanto fugia e muitos outros morreram por causa da loucura dos políticos", completou.

Segundo a ONU, pelo menos 36 mil pessoas se viram deslocadas nos últimos dias, até o cessar-fogo declarado na terça-feira passada e que está sendo respeitado por ambos lados até o momento.

Além do deslocamento, vários mercados da cidade foram saqueados, o que causou uma escassez de alimentos em áreas de Juba, que agora tenta voltar pouco a pouco à normalidade.

O governo do presidente Salva Kiir e a oposição armada liderada pelo vice-presidente Machar formaram um Executivo de união nacional no último mês de abril passado e a expectativa é que as forças leais aos dois dirigentes políticos se integrem no exército sul-sudanês.

O conflito entre ambos explodiu em dezembro de 2013, quando Kiir, da etnia dinka, denunciou uma suposta tentativa de golpe de Estado liderada por Machar, da etnia nuer.

Desde a independência do Sudão, que nesta semana completou cinco anos, o Sudão do Sul viveu uma situação política e de segurança instável, que se viu exacerbada com o início do conflito interno em 2013.

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