Moradores tentam voltar à rotina em uma Nice ensanguentada

Luis Miguel Pascual.

Nice (França), 15 jul (EFE).- O centro de Nice fervia na manhã mais triste da cidade mediterrânea francesa, horas depois do massacre que ensanguentou sua avenida mais famosa.

Os moradores tentavam fazer a cidade voltar a sua rotina porque, como afirmou a funcionária Annie Piveteau, "se deixarmos de viver é porque nos venceram".

Annie está atenta ao rádio e ao telefone atrás do balcão de sua loja de souvenires, a apenas alguns passos onde a polícia francesa investiga, sob o olhar de vários curiosos, os destroços do atentado que ontem à noite matou pelo menos 84 pessoas.

"Toda minha família está bem, mas uma prima minha estava no Passeio dos Ingleses ontem à noite com seu filho. Não quer sair de casa", afirmou pouco antes do pranto vencer sua voz.

A manhã, segundo disse, estava sendo normal quanto às vendas. "A clientela é principalmente de turistas estrangeiros, que parece que não se inteiraram muito do que acontece. Acabam de sair dois americanos. Suponho que estão acostumados a este tipo de coisa desde o 11 de setembro", comentou.

Seu telefone não para de receber mensagens. "Todo mundo está preocupado conosco. Felizmente meu filho de nove anos está passando uns dias com seus avôs. Se não, é certo que estaríamos lá vendo os fogos de artifício", relatou.

Sua companheira Jessica não teve forças para trabalhar esta manhã. Era ela quem tinha aberto a loja "Eddy" ontem à noite, quando um caminhão se lançou por uma avenida abarrotada de gente e provocou o massacre que, de novo, comoveu à França, oito meses depois dos atentados que mataram 130 pessoas em Paris e Saint-Denis.

"A loja se encheu de gente, foi uma invasão, segundo me contou", assegurou Annie.

A seu lado, o café Le Mediterranée também foi invadido. "Subiram ao andar de cima. Havia famílias com filhos, não queriam sair. Estavam assustados. Havia até um policial à paisana que se negava a descer", contou Jackie Chibois, que o gerencia há 45 anos.

"Eu não tive medo. Vivi a independência da Argélia, estou acostumada com estas coisas", acrescentou enquanto servia cafés em um ambiente silencioso.

Muitos clientes frequentes não foram, mas os turistas seguem passando. "Imagino que após a loucura de ontem à noite, as pessoas preferem não se aproximar do centro", declarou.

Longe da orla marítima, a cidade vive uma calma surpreendente. Os turistas mantêm o ritmo habitual e a cidade ferve, como sempre em julho, sobretudo em datas tão marcantes como estas nas quais o feriado nacional pela Tomada da Bastilha acontece perto de um final de semana.

Nice, que vive em torno de seu Passeio dos Ingleses, orgulho da cidade, parece ter virado as costas para sua praia. As forças da ordem isolaram a área, oculta atrás de uma lona branca.

Pierre vende jornais em uma rua ali perto. "O 'Nice Matin' esgotou", afirmou apontando para um cartaz no qual aparece a capa do principal jornal da cidade com a manchete "Massacre em Nice" sobre uma foto na qual os corpos se estendem pelo solo.

As calçadas se enchiam de gente à medida que a manhã avançava. A vida parecia inundar a cidade que ainda segura as lágrimas.

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