Donald Trump, um "aprendiz" com ego inflado para a Casa Branca

Pedro Alonso.

Cleveland (EUA), 19 jul (EFE).- O polêmico magnata Donald Trump, eleito oficialmente nesta quarta-feira como candidato à presidência dos Estados Unidos na Convenção Republicana de Cleveland, pode se orgulhar de quase tudo, menos de uma coisa: experiência prévia em um cargo político.

Nesse terreno, Trump poderia assemelhar-se a um participante de "O Aprendiz", o popular programa de televisão que lhe lançou ao estrelato aos gritos de "Você está demitido!".

De fato, o novo candidato presidencial, que atuava nesse espaço como juiz implacável perante a destreza empresarial de jovens aprendizes que aspiravam um suculento contrato anual para dirigir uma de suas companhias, abomina a classe política.

"Eu não sou um político. Os políticos falam e não agem. Eu sou o contrário", ressaltou Trump há quase um ano, após apresentar-se como pré-candidato em 16 de junho de 2015 com um controvertido discurso no qual chamou os imigrantes mexicanos de "estupradores".

No último mês de abril, o impulsivo multimilionário reconheceu que só tem sido um político "durante um tempo muito curto" e está em processo de "aprendizagem".

"O que realmente fui é um empresário bem-sucedido durante muito tempo", ressaltou Trump, conhecido por sua autoestima sem limites.

Tanto é assim que em 1995 publicou no jornal "The New York Times" um artigo intitulado, sem empacho algum, "O que meu ego quer, meu ego consegue", filosofia que impulsionou sua meteórica e inesperada ascensão à indicação presidencial do Partido Republicano.

Antes de concorrer pela Casa Branca com uma campanha infestada de insultos que soube capitalizar o descontentamento de muitos eleitores com a classe política de Washington, Trump era já nos EUA uma celebridade com uma biografia digna de um roteiro de Hollywood.

Nascido em 14 de junho de 1946 no bairro nova-iorquino de Queens, Trump é o quarto dos cinco filhos de Fred Trump, construtor de origem alemã, e Mary MacLeod, dona de casa de procedência escocesa.

Tão rebelde era já desde criança que seu pai teve que tirá-lo aos 13 anos da escola, onde agrediu um professor, e interná-lo na Academia Militar de Nova York, com a esperança que a disciplina militar colocasse rédeas em seu filho.

Aparentemente, o pequeno Donald "era um valentão boca-suja" que adorava "dizer palavrões a todo volume", segundo o médico Steve Nachtigall, de 66 anos, que sofreu com suas travessuras.

Trump se graduou em 1964 na academia, onde alcançou a categoria de capitão e inclusive vislumbrou seu destino: "Um dia, eu serei muito famoso", comentou então ao cadete Jeff Ortenau.

Em 1968, o magnata formou-se em Economia na Escola Wharton da Universidade da Pensilvânia, e se transformou no favorito para suceder seu pai à frente da empresa familiar, Elisabeth Trump & Son, dedicada a edifícios de aluguel de classe média nos bairros nova-iorquinos de Brooklyn, Queens e Staten Island.

Trump tomou em 1971 as rédeas da companhia, rebatizada como The Trump Organization, e se mudou para glamorosa Manhattan à caça de uma fama que chegou a base de projetos pomposos, autopromoção e uma relação tempestuosa com a imprensa.

O "aprendiz" de presidente justifica essa estratégia nas memórias "Trump: A Arte da Negociação", um best-seller imprescindível para entender o personagem, apresentado no livro como um "mestre do trato" que pensa "em grande estilo".

"Lido com as fantasias das pessoas", escreveu o candidato, que abusa - como se pode comprovar tanto nos negócios como na política - da "hipérbole" como "uma forma inocente de exagero e uma forma muito efetiva de promoção".

O ousado empresário começou então a cimentar sua fama com deslumbrantes obras em Manhattan, como a Trump Tower, um luxuoso arranha-céus de 58 andares com uma cascata do lado de dentro em plena Quinta Avenida e onde, obviamente, lançou sua campanha presidencial.

O magnata ergueu um império que inclui hotéis, campos de golfe e cassinos, um negócio este último no qual incorreu em quatro falências apesar do "sucesso" que Trump tanto alardeia.

Segundo a revista "Forbes", o candidato republicano possui uma fortuna de US$ 4,5 bilhões, mas Trump insiste que o número ascende a US$ 10 bilhões.

O multimilionário também lucrou no mundo do espetáculo não só com "O Aprendiz", que lhe valeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, mas com a aparição em vários filmes e a propriedade de concursos de beleza como o Miss Universo.

Com três casamentos e dois divórcios midiáticos (com a modelo tcheca Ivana Zelnickova em 1991 e a atriz americana Marla Maples em 1999), a vida pessoal de Trump foi tão agitada quanto sua carreira profissional, para deleite da imprensa sensacionalista.

Zelnickova teve três filhos com o magnata (Donald Jr., Eric e Ivanka), que trabalham como vice-presidentes executivos da Trump Organization e exercem um papel crucial na campanha presidencial de seu pai, enquanto com Maples teve uma filha, Tiffany.

Desde 2005, o multimilionário presbiteriano está casado com a ex-modelo eslovena naturalizada americana Melania Knauss, de 46 anos, com quem tem um filho, Barron William.

Pouco dado a abrir seu coração em público, Trump nunca escondeu o trauma pela "muito triste" morte de seu irmão mais velho, Fred, um "cara maravilhoso" que morreu aos 43 anos pelas consequências do alcoolismo, o que ajuda a explicar porque o candidato não fuma nem bebe álcool.

Como detalhe curioso sobre sua singular personalidade cabe destacar que o empresário se define como um "obcecado por micróbios" e, por esse motivo, sente aversão a apertar mãos.

Com a indicação debaixo do braço, Trump enfrenta agora um desafio "em grande estilo", como ele gosta: equilibrar seu ego com políticas que seduzam o eleitorado para receber as chaves da Casa Branca.

Caso contrário, o eleitor, como seu personagem em "O Aprendiz", pode eliminá-lo nas eleições de 8 de novembro com um clamoroso "Você está demitido!".

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