Mike Pence, um autêntico conservador para reconciliar Trump com o partido

Cristina García Casado.

Cleveland (EUA), 20 jul (EFE).- O governador de Indiana, Mike Pence, aceitou nesta quarta-feira sua indicação como companheiro de Donald Trump na candidatura republicana à presidência dos Estados Unidos, na qual contribui com seu perfil de autêntico conservador e uma experiência política que pode reconciliar o magnata com o núcleo tradicional do partido.

Pence, de 57 anos, deveria decidir na última sexta-feira se seria candidato à reeleição como governador, porque a lei de Indiana não permite concorrer por um cargo estadual e um federal simultaneamente.

Donald Trump também o estava pressionando: devia anunciar seu vice antes da Convenção Nacional Republicana de Cleveland (Ohio), que na terça-feira oficializou a candidatura de ambos.

O magnata não conhecia bem o governador até a preparação das primárias de Indiana em abril, quando solicitou sua inclusão no processo de seleção porque ficou impressionado com a queda do desemprego neste estado predominantemente agrícola do Centro-Oeste, além de outras políticas de Pence.

O incendiário multimilionário, que tem quebrado todos os esquemas das eleições americanas e de seu próprio partido, queria um candidato a vice-presidente com experiência política que o ajudasse a construir pontes com a maioria republicana no Congresso, onde muitos legisladores ainda criticam sua indicação.

Pence, congressista por Indiana entre 2001 e 2013, mantém boas ligações desse período em Washington, onde lutou pela disciplina fiscal, um governo federal com menos peso, uma política de defesa forte, leis de imigração restritivas e uma agenda social estritamente conservadora. Ou seja, o ABC da ortodoxia republicana.

"É um candidato que preenche todos os requisitos", é um dos comentários feitos nos círculos políticos de Washington, onde Pence, um cristão fervoroso, é visto como uma "opção de consenso" que pode fazer com que Trump se torne "digerível" não somente entre a elite do partido, mas também para o eleitor ultraconservador e o poderoso setor evangélico.

Estes grupos, muitas vezes interligados, nunca confiaram que Trump seja um autêntico conservador: no passado apoiou os democratas, se mostrou aberto em temas como o aborto e está em seu terceiro casamento, com um histórico sentimental extensamente divulgado pela imprensa especializada em cobrir a rotina das celebridades.

Ao contrário, Pence está casado há 31 anos com sua esposa, Karen, tem três filhos e não se tem conhecimento de qualquer escândalo pessoal.

Além disso, seu legado de conservadorismo social é irrepreensível. Na Câmara dos Representantes liderou o tipo de batalha exaltado por este setor e, como governador, assinou uma lei criticada por permitir a recusa de serviços a homossexuais com base em motivos religiosos e outra que proíbe aborto pela incapacidade, raça ou gênero do feto.

Sua política econômica segue à risca a doutrina clássica republicana: aprovou a maior redução de impostos da história de Indiana, impulsionou reduções tributárias para as empresas com o objetivo de atrair investimento e em toda sua vida foi um campeão da disciplina fiscal estrita.

A economia também é seu maior ponto de atrito com Trump: como congressista votou a favor de todos os acordos de livre-comércio que foram propostos e apoiou em várias ocasiões a liberação do comércio com a China, uma política que o magnata rejeita explicitamente por considerá-la responsável pela perda de dezenas de milhares de postos de trabalho nos EUA.

Pence também apoia o Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP) que foi negociado durante o governo de Barack Obama e cuja oposição total é um dos pontos cardeais da campanha de Trump.

O governador, que pensou em se apresentar como candidato às primárias deste ano, traz a experiência legislativa e governamental que falta a Donald Trump e incorpora ao conservador o modelo ideal do qual o magnata está longe em vários sentidos.

Pence não é conhecido por seu carisma nem por uma personalidade forte, mas não precisa: concorrerá pela Casa Branca ao lado do candidato que mais paixão, seja amor ou ódio, suscitou na história do país.

De perfil discreto e nome pouco conhecido em nível nacional, Mike Pence é uma aposta que, sem entusiasmar quase ninguém, parece agradar um pouco a todos, o que já é bastante levando em conta a insólita relação de guerra aberta entre setores tradicionais do Partido Republicano e seu candidato à Casa Branca.

O governador, que antes de que Trump ganhasse as primárias de Indiana, apoiou o senador ultraconservador Ted Cruz, defendeu depois publicamente que o magnata "deu voz à frustração de milhões de americanos trabalhadores com a falta de progresso em Washington".

Mike Pence (Columbus, 1959) cresceu e cursou todos seus estudos, incluindo sua licenciatura em Direito, em Indiana, um estado eminentemente agrícola do Centro-Oeste dos EUA considerado historicamente um reduto republicano.

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