Violência machista gera debate sobre desamparo das mulheres no Peru

María Clara Montoya.

Lima, 22 jul (EFE).- Dois casos de violência machista no Peru abriram o debate sobre a falta de proteção das mulheres perante estas situações e levaram a sociedade civil a se organizar por meio das redes sociais para convocar uma manifestação nacional para o dia 13 de agosto com o lema "#NiUnaMenos" (Nem uma a menos).

Somente neste ano, o Ministério da Mulher e Populações Vulneráveis registrou 54 assassinatos de mulheres por parceiros ou ex-parceiros e 118 tentativas de feminicídio. A população do Peru era, em 2013, de 30,38 milhões de pessoas.

Para a ministra desta pasta, Marcela Huaita, esses "números duros refletem a existência deste tipo de violência, que é a expressão de um machismo presente em nossa sociedade transmitido por homens e mulheres".

Na semana passada, o Juizado Penal de Ayacucho condenou Adriano Pozo pelo crime de lesões a ex-namorada Cindy Arlette Contreras em um hotel desta cidade em 2015 e determinou um ano de prisão.

No ano passado, as câmeras da recepção do hotel registraram Pozo, totalmente nu, perseguindo e arrastando a jovem para o quarto, onde ela disse que ele tentou estupra-la e agredi-la, mas os juízes rejeitaram a acusação de tentativa de feminicídio e estupro.

Em outra sentença que chamou muita atenção no país, o cantor Ronny García foi condenado na última terça-feira a quatro anos de prisão e uma reparação civil de 28 mil sóis (quase o mesmo valor em reais) por agredir e causar fraturas no rosto da bailarina Lady Guillén, que o denunciou por um suposto sequestro em 2012.

Ao conhecer a decisão, a bailarina lamentou "estar sofrendo uma nova injustiça", já que considerou a pena insuficiente.

Os dois casos ocuparam as manchetes dos principais jornais peruanos nos últimos dias e a especialista em gênero do escritório da ONU Mulheres no Peru, Eliana Villar, disse esperar que esta divulgação "possa chamar a atenção sobre a violência machista".

"O nível de tolerância social e também das próprias autoridades é incrível, como se pode ver nas resoluções recentes", afirmou Villar em entrevista à Agência Efe.

A representante da organização feminista Demus, María Ysabel Cedano, concorda com esta opinião e disse que exige um pronunciamento do presidente da Corte Suprema de Justiça, Víctor Ticona, e do presidente do Conselho Nacional da Magistratura, Guido Águila, porque estes casos são "de machismo e corrupção dentro do sistema da Justiça".

Segundo dados da Defensoria Pública, 33% das vítimas de violência machista denunciou previamente seus agressores, mas para Eliana são "muito poucos" os casos que concluem porque "o sistema minimiza de muitas formas a denúncia, volta a vitimizar as mulheres e dá o recado que é melhor não denunciar".

A ministra Marcela Huaita declarou, por sua vez, que nestas últimas decisões os juízes "minimizaram o impacto da violência e só levam em conta as consequências físicas e não as emocionais" das vítimas, embora "tenham existido uma defesa legal correta e provas suficientes".

Assim, as mulheres se sentem "desprotegidas" porque "confiaram no sistema judiciário e esta é uma mensagem de impunidade que não afeta apenas os envolvidos concretamente nos casos, mas muitas vítimas em circunstâncias similares que talvez não tenham a chance de virar notícia ou consigam fazer um vídeo da agressão", acrescentou.

Os dados do Ministério da Mulher e Populações Vulneráveis mostram que 7 de cada 10 mulheres no Peru sofreram maus-tratos físico ou psicológico por parte de seus companheiros.

Embora a lei contemple medidas de proteção, como ordens de afastamento, estas "não são efetivas e não existe gente suficientemente disponível e especializada para cumprir a quantidade de casos que existem", lamentou María Ysabel.

A passeata nacional "#NiUnaMenos" acontecerá na capital Lima e tanto Marcela como Eliana e María Ysabel aplaudiram a proposta que surgiu através das redes sociais.

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