Joe Biden, o provável sucessor de Obama que se rendeu diante de Hillary

Lucía Leal.

Washington, 27 jul (EFE).- O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, é a voz mais visceral na Casa Branca, um político guiado pela intuição que nesta quarta-feira, três décadas após seu primeiro sonho presidencial, respaldou categoricamente outra candidata democrata na convenção que gostaria de ter protagonizado.

Durante seu discurso hoje na Convenção Nacional Democrata não quis diminuir a importância da indicação de Hillary Clinton e defendeu que sua chegada ao Salão Oval "mudará as vidas" de todas as mulheres do país.

Com 73 anos e quatro décadas de carreira política, Biden tem lutado para se acostumar com a ideia de abrir mão do poder no mesmo dia em que o presidente Barack Obama deixar a Casa Branca, após oito anos.

Quem o conhece sabe que ele gostaria de assumir o lugar de Obama e muitos o consideravam seu sucessor natural dado seu apoio incondicional às medidas do presidente e sua tendência a ser mais progressista que Hillary, especialmente em política externa.

Foram necessários pelo menos dois anos para decidir se devia ou não se apresentar para as eleições primárias, em um processo marcado pela morte de seu filho Beau, em maio de 2015, e que finalmente concluiu com o anúncio, em outubro do ano passado, que não concorreria, em parte pelo luto e em parte pela falta de tempo para orquestrar uma campanha bem-sucedida.

"Foi a decisão correta para minha família", afirmou hoje em entrevista para a emissora de televisão "MSNBC".

Biden garantiu que não se "arrepende" da decisão e brincou sobre o apoio que recebeu, ao afirmar que "a forma de deixá-lo realmente popular é anunciar que não se apresentaria para concorrer à presidência".

O vice-presidente aceitava, portanto, ficar a um passo da Casa Branca, um cargo que aspirou em duas ocasiões, a primeira em 1988 e a segunda em 2008, competindo contra Bill Clinton e Obama, respectivamente.

Com a ex-secretária de Estado teve desencontros famosos - como sua oposição à operação contra Muammar Kadafi, na Líbia, que Hillary promoveu em 2011 dentro do governo de Obama - e em algumas ocasiões inclusive a criticou abertamente, por isso que seu apoio hoje era especialmente importante para a candidata democrata.

A veemência de Biden tem sido o fator decisivo de sua vida política: enquanto alguns o aplaudiam por ser honesto e genuíno, outros o tachavam de impulsivo e oportunista.

O contraste entre o cálculo de Obama e o ímpeto de Biden é para muitos o que faz funcionar sua equipe, definido pelo ex-vice-presidente Walter Mondale como "um casal sem possibilidade de divórcio, mas que vive em casas diferentes".

Ao "número dois" de Obama custou fazer o papel de subalterno de alguém a quem triplicava em experiência e não deixou de lembrar com alguma nostalgia dos dias em que era seu próprio chefe.

Mas este veterano ex-senador foi capaz de se adaptar a uma posição em que as responsabilidades definidas são poucas e a missão tem com objetivo servir com descrição de respaldo ao presidente.

Quando Obama propôs que ele fosse eu braço direito, Biden colocou apenas uma condição, segundo confessou em 2008: que "em qualquer decisão-chave, econômica e política, pudesse estar na sala", e desde então nunca teve medo de contradizer o presidente.

Com Barack Obama teve desencontros famosos, como aconteceu com seu conselho de não impulsionar a reforma da saúde em um momento de dificuldade econômica ou quando recomendou não lançar a operação que matou Osama bin Laden, em maio de 2011.

Mas uma vez em andamento, Joe Biden se transformou no defensor mais fervoroso dessas políticas, e em 2012 disse que o ataque contra Bin Laden foi a decisão "mais ousada" que alguém tomou "em 500 anos".

Apesar da sua vasta experiência, a linguagem nua e crua de Biden lhe rendeu alguns problemas.

Essa tendência para dispensar o roteiro também lançou as bases para uma mudança importante: em maio de 2012, Joe Biden afirmou que estava "absolutamente confortável" com o casamento homossexual.

Pouco depois, Obama se viu obrigado a reconhecer seu apoio às uniões do mesmo sexo, gerando uma corrente que culminou na decisão do Supremo Tribunal em legalizar o casamento gay.

Joseph Robinette Biden nasceu em uma família humilde - seu pai era vendedor de automóveis - e com isso conseguiu conquistar os eleitores brancos da classe trabalhadora, os mesmos que resistiam a Obama e que ainda são céticos com Hillary Clinton.

Sua história pessoal está profundamente marcada pelo acidente de trânsito que matou sua mulher e sua filha, quando ele tinha 29 anos e saboreava sua eleição como senador.

Biden não se afogou na amargura e se dedicou a seus outros dois filhos, e no ano passado voltou a dar exemplo de integridade após perder seu primogênito, Beau, que morreu por conta de um tumor cerebral aos 46 anos.

Sua morte o levou a liderar com mais força uma campanha para a luta contra o câncer, que defendeu com entusiasmo.

Em 1977, casou-se novamente com sua esposa atual, Jill Biden, com quem teve outra filha, Ashley.

Em 1988, concorreu pela presidência pela primeira vez, mas teve que sair depois que se descobriu que ele tinha plagiado um discurso, uma mancha em seu currículo que o persegue desde então.

Em 2008, ele tentou novamente e obteve o segundo prêmio: ficar apenas um passo do cargo pelo qual tanto sonhou e que, finalmente, escorregou de suas mãos.

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