Luta contra a escravidão divide a sociedade mauritana

Fátima Zohra Bouaziz.

Nouakchott, 1 ago (EFE).- A luta contra o fenômeno da escravidão divide a sociedade mauritana entre quem denuncia sua persistência e quem acredita que falar constantemente dela só leva mais à ruptura social e étnica do país.

Continuar falando da escravidão na Mauritânia é principalmente "culpa" da ONG antiescravista Iniciativa de Ressurgimento do Abolicionismo, que tem vários de seus militantes presos acusados de incitar atos de violência, após uma operação de despejo de uma terra particular.

O combate da ONG é visto por muitos mauritanos, principalmente da etnia dominante (árabe e berbere), como um motivo de debilitar a unidade de um país composto aproximadamente por um terço de "beidán" ("brancos", como se chamam a si mesmos os árabe-berberes), um terço de negro-africanos e um terço de "harratin", ou negros arabizados.

Os beidán e os harratin falam o mesmo idioma (variante hassani do árabe) e compartilham os mesmos hábitos, vestimenta e até folclore; mas estes têm o estigma do passado: são filhos ou netos de escravos dos "brancos", e seu próprio nome significa "libertos".

Se agora a escravidão já não existe oficialmente, continuam sendo os negros que trabalham de serventes para os beidan, os pedreiros nas obras públicas e os pastores nos campos (tarefas todas elas desprezadas pelos "brancos"), o que faz deles a comunidade mais vulnerável em nível social e econômico.

Para Mohammed Salem Ould Dah, diretor do Centro árabe-africano de Pesquisa em Nouakchott, o fenômeno escravista como prática está desaparecido desde a independência do país e a promulgação da Constituição mauritana, que estipula a igualdade entre os cidadãos.

A escravidão foi abolida na Mauritânia em 1980, mas não desapareceu; de fato, em 2015 foi aprovada uma lei que considerou o fenômeno como "crime contra a humanidade imprescritível" e mais tarde se criou um tribunal especial para os casos de escravidão.

"O restante da escravidão são só suas sequelas sociais e econômicas, visto que os harratin não tiveram no passado acesso à educação", disse à Agência Efe Ould Dah.

Ele ressaltou que o governo adotou políticas específicas para os harratin no âmbito econômico e social para favorecer sua integração na sociedade como cidadãos com plenos direitos.

O analista mauritano reconheceu que ainda restam "casos isolados" de escravidão em pequenas localidades rurais mauritanas distantes no sul e no leste do país, mas acrescentou que as autoridades punem os responsáveis, em alusão aos poucos julgamentos realizados contra patrões escravistas.

O discurso de Ould Dah é o mesmo do governo mauritano e da maior parte dos partidos, com exceção da ONG abolicionista, que optou por um discurso agressivo e que é acusada em algumas ocasiões de obedecer a "uma agenda estrangeira".

Para os olhos de uma parte da sociedade mauritana, a ONG é a promotora de um discurso "extremista e excludente" por se referir constantemente a problemas étnicos, o que fomenta a discórdia e a divisão na sociedade.

Desde sua criação em 2009, a Iniciativa de Ressurgimento do Abolicionismo revelou mais casos encobertos de escravidão, a que chama de "escravidão agrícola", em referência aos camponeses harratines "herdados" junto com as terras pelos proprietários "brancos".

A ONG sustenta que os escravos ainda representam 4% da população mauritana, segundo assegurou à Efe Issa Ould Ali, um dos membros fundadores, que exigiu "uma mudança nas fontes da legislação mauritana".

Ali ressaltou que seu movimento reivindica a eliminação de alguns livros de exegese do rito sunita maliki, que constitui uma das principais fontes de legislação na Mauritânia, um país que leva oficialmente o nome de República Islâmica.

O emblemático líder da ONG, Biram Ould Abeid, queimou publicamente vários destes livros do rito sunita maliki em Nouakchott, o que lhe valeu uma condenação de dois anos de prisão, mas estando na prisão se candidatou à presidência do país e obteve 8% dos votos, porcentagem nada desprezível visto que não pôde fazer campanha.

Prêmio da ONU de direitos humanos em 2013 por "seu combate não violento contra a escravidão", o combate de Biram desagrada muitos mauritanos por causa de suas formas e sua agressividade, mas ninguém nega que põe o dedo na ferida do enorme desigualdade étnica que assola a sociedade mauritana.

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