Cubanos na Colômbia vivem dilema entre a deportação e o sonho americano

Éder Narváez.

Altero (Colômbia), 6 ago (EFE).- Amontoados em improvisados abrigos na cidade litorânea de Turbo, na Colômbia, cerca de dois mil cubanos, entre homens, mulheres e crianças, passam os dias esperando notícias para saber o que o futuro lhes reserva e descobrir se poderão seguir viagem aos Estados Unidos ou se serão deportados.

Em Turbo, na região de Urabá, perto da fronteira com o Panamá, a tensão é sentida quando se visita o bairro de Obrero, onde está a maioria dos cubanos, além de haitianos e africanos, que há mais de dois meses esperam uma permissão para atravessar a inóspita floresta do Darién.

Cubanos que cruzaram a fronteira e chegaram até o México, de onde foram deportados e voltam a tentar, relatam que é preciso se embrenhar por sete dias na densa Tapón del Darién, com caminhadas de mais de oito horas diárias por trilhas difíceis onde encontram os corpos daqueles que morreram tentando.

"É quase impossível passar por esse atalho. São dias de sacrifícios e perigos. Vi corpos no meio do caminho e, por isso, digo a muitos amigos que pensem bem antes de ir. Eu não gostaria que ninguém ficasse nessa selva", disse o jovem Alier Artile, que já tentou fazer a travessia por duas vezes.

A passagem na fronteira foi fechada pelo governo panamenho aos imigrantes ilegais. Com isso, para os cubanos que diariamente chegam a Turbo em busca do sonho americano, não resta nada a se fazer, além de esperar na cidade portuária, envoltos pelo ar abafado típico do lugar.

O fechamento foi determinado no último dia 9 de maio pelo presidente do Panamá, Juan Carlos Varela, durante a "Operación Escudo" para "blindar" o país contra o tráfico de drogas e a entrada de imigrantes ilegais.

Desde então, a maioria dos cubanos está instalada em um galpão que se transformou em acampamento onde a multidão aguarda, em precárias condições, que a situação seja resolvida. Para as autoridades locais, no entanto, o caso já se tornou um problema de saúde pública.

"Fazemos atendimento médico permanente e isso nos garante que nada grave aconteça, mas a ameaça persiste e o município decidiu organizar um plano de ação para diminuir os riscos envolvidos", afirmou o secretário do governo de Turbo, Emelides Muñoz Meza.

Os adultos passam boa parte do dia deitados em pequenas "cabines" construídas por eles mesmos. Os que têm um celular jogam ou usam o aparelho para conversar, as mulheres cozinham e as crianças pulam nos colchões ou correm pelo espaço, onde a roupa fica pendurada entre uma cama e outra e as peças fazem as vezes de cortina, proporcionando um pouco de privacidade.

Como não há espaço para todo mundo por lá, os recém-chegados se dividem por outros cantos da cidade onde qualquer centímetro serve para levantar um barraquinho de papelão e plástico.

Em uma destas "casas" improvisadas, três bandeiras - a da Colômbia, a de Cuba e a branca da paz - parecem dar as boas-vindas aos visitantes, mas alguns olham desconfiados para tudo e para todos.

"Não me venha falar em deportação. Vai pra p$%×!": é o que está escrito, à mão, em um pedaço de papelão colocado na entrada de um dos "imóveis". Logo ao lado está outro com o desenho de uma cruz e a frase "Deus está conosco".

A deportação é o fantasma dos cubanos. O governo colombiano afirma que não pode atender ao pedido deles, que seria o de colocá-los em um avião rumo ao México, porque isso seria criar outro problema e fomentar o tráfico humano.

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, reiterou na última segunda-feira que a deportação é a solução, já que todos entraram ilegalmente no país, a maior parte após uma longa travessia por terra a partir do Equador, que não exige visto a cidadãos de Cuba.

"Estamos em diálogo com os imigrantes, no caso particular de Turbo, para ver se eles preferem voltar a seus países de origem ou se preferem retornar ao país de onde vieram, para então começarmos as deportações porque aqui eles estão ilegalmente", declarou o presidente.

Mas os cubanos não estão dispostos a retornar à ilha e manifestaram isso na carta que escreveram ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Organização dos Estados Americanos (OEA). No texto, eles pedem ganhem permissão para chegar "de maneira segura" ao território americano.

"A maioria dos que estão nesta condição está determinada a morrer nestas terras se a decisão final for a deportação", advertiram no pedido.

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