Trump ameaça empurrar republicanos para uma década perdida

Jairo Mejía

Washington, 7 ago (EFE).- O caos da campanha de Donald Trump à Casa Branca parece reduzir suas possibilidades de vitória a uma histórica debandada de homens brancos às urnas em novembro, um sinal de que com o magnat, o Partido Republicano poderia se desfazer de anos de aproximação com as minorias.

Os hispânicos, os afro-americanos, os muçulmanos, as mulheres, os homossexuais e até os incapacitados parecem ter dado as costas definitivamente a Trump e as pesquisas dão porcentagens mínimas, em alguns casos de 0%, ao candidato republicano em intenções de voto entre estes grupos, cada vez mais decisivos.

Isso desfaria anos de trabalho e milhões de dólares investidos em estrategistas republicanos para ampliar sua base de eleitores, ao mesmo tempo que os EUA se transformam em um país mais diverso, e poderia transformar o Partido Republicano em marginal, que se encontra hoje em máximos de poder em mais de oito décadas (com exceção da presidência).

Segundo uma pesquisa publicada nesta semana pela rede "CNN", Trump não só está atrás da democrata Hillary Clinton em intenções de voto dos "não brancos", mas não supera nem os candidatos minoritários do Partido Verde (Jill Stein) e Libertário (Gary Johnson), ambos com 8% contra 7% da controverso magnata.

Em entrevista à Efe, Jay Leve, presidente da empresa de pesquisa SurveyUSA, uma das mais prestigiadas do país, opinou que Trump não pode evitar a alienação de todos os eleitores que não sejam brancos, embora tente.

"Durante a maior parte de sua vida, Trump viajou em limusines para assistir a eventos com brancos ricos e retornou a sua cobertura de um edifício ocupado por brancos (...) Trump nos pede para voltar a imaginar o país nos dias quando latinos, muçulmanos e negros eram invisíveis porque 'sabiam seu lugar'", disse Leve.

A catástrofe para a qual Trump parece se encaminhar provoca casos como o do estado-chave de Ohio, onde o magnata obtém 0% de apoios de eleitores afro-americanos, segundo uma pesquisa realizado no mês passado pelo canal "NBC".

E se as coisas acabarem como marcam as pesquisas, Trump poderia obter muito menos de 27% dos votos hispânicos que alcançou o republicano Mitt Romney em 2012, desfazendo-se assim definitivamente do progresso do partido conservador entre os latinos, que em 2004 deram um apoio inédito de 40% ao candidato presidencial George W. Bush.

Em nível nacional, a vantagem de Hillary não deixa de ampliar e segundo a média das últimas pesquisas realizadas pela RealClearPolitics, a ex-secretária de Estado tem mais de sete pontos de vantagem sobre Trump, que obtém 40%.

A personalidade imprevisível e as formas de Trump, cuja última polêmica foi confrontar os pais de um soldado americano muçulmano morto no Iraque por tê-lo criticado na convenção Democrata, lhe poderiam até privar de um dos coletivos que mais o apreciava: os veteranos e as famílias de militares.

Segundo cálculos da publicação conservadora "National Review", isso poderia diminuir uma parte importante de um coletivo de 30 milhões de eleitores, deixando como única via rumo à vitória a participação me massa de seu principal alvo de votos: o homem branco.

O estado da Pensilvânia, que se inclinou por candidatos presidenciais democratas desde 1988, é o centro do plano e laboratório da campanha de Trump para fazer frente contra toda previsão com relação à Casa Branca.

Nesse estado, apesar de seguir atrás de Hillary no cômputo total, Trump consegue uma sólida marca de 53% de intenções de voto entre os brancos em formação universitária, contra 31% de Hillary, e mantém uma margem de dez pontos entre homens alvo em geral.

As mensagens de construção de um muro com o México, optar pelo protecionismo ou não permitir a entrada de muçulmanos ao país são bem recebidos por este setor da população após anos de depressão econômica e globalização, que acabaram com indústrias e trabalhos bem pagos que já não existem.

Se Trump quer ganhar as eleiçõesm deveria mobilizar a níveis históricos a grande parte do heterogêneo grupo dos eleitores brancos (69% do total), a níveis mais altos que hispânicos (12% do eleitorado potencial) ou afro-americanos (outros 12%).

"Não exagero se digo que as pessoas de cor (os não brancos) têm em suas mãos o futuro do país (...) Se os latinos votam por Hillary em grandes números e os afro-americanos votam em massa como fizeram com Barack Obama em 2008, Hillary arrasará nas eleições", disse Leve.

Enquanto isso, em privado os republicanos entraram em um pânico que não escondem questionando-se se ainda podem manter Trump como seu candidato sem que isso tenha consequências catastróficas para o partido como entidade e seu futuro.

"A imagem negativa de Trump entre hispânicos, mulheres e independentes é algo que seria devastador para os republicanos. A retórica de divisão contra a comunidade hispânica tem um potencial desastroso que pode durar anos", diz um republicano do estado da Flórida.

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