Deslizes de Medvedev animam eleições russas

Ignacio Ortega.

Moscou, 10 ago (EFE).- Na falta de debate político, os contínuos deslizes do primeiro-ministro da Rússia e líder do partido do Kremlin, Dmitri Medvedev, animam as eleições legislativas, cuja campanha se apresentava como entediante e com a oposição cabisbaixa.

"Simplesmente não há dinheiro", respondeu Medvedev quando uma pensionista lhe perguntou durante uma visita à península da Crimeia por que as pensões não foram aumentadas como tinha prometido o governo.

A frase, que foi alvo de zombaria nas redes sociais, se tornou tão popular que até um famoso cantor e comediante russo, Semyon Slepakov, a transformou em um grande sucesso no YouTube, onde recebeu mais de oito milhões de visitas.

Medvedev não se conformou com isso e acrescentou sorridente: "Mas aguentem. Eu lhes desejo o melhor, bom ânimo e boa saúde".

Os comunistas, os segundos colocados nas pesquisas de intenções de voto, não desperdiçaram a oportunidade para criticar o líder do partido governista, o Rússia Unida.

"Esta declaração absolutamente idiota do primeiro-ministro demonstra a incompetência de nosso governo. O que está claro é que a estratégia do Executivo se resume em uma frase: 'Não há dinheiro, mas aguentem'", disse a deputada Vera Ganzia.

O último incidente que irritou os russos aconteceu na semana passada durante um fórum no qual Medvedev debateu com representantes do setor educativo, um dos mais afetados pela crise.

Um professor da empobrecida região do Daguestão (Cáucaso norte) tomou a palavra e perguntou ao chefe do governo o que devia fazer um professor que ganha cerca de US$ 200, enquanto os membros das forças de segurança ganham várias vezes mais.

"Se você quer ganhar dinheiro, há várias vagas onde se pode fazer mais rápido e melhor. Por exemplo, nos negócios", lhe respondeu Medvedev, que lembrou que ser professor é uma vocação e quem quer ganhar dinheiro deveria mudar de profissão.

Medvedev, cujo destino esteve ligado ao de Vladimir Putin desde que se conheceram em São Petersburgo depois da queda da União Soviética, lembrou inclusive que nos anos 90 ele teve a oportunidade de ganhar mais dinheiro, mas optou pela universidade.

Esta resposta provocou um grande mal-estar, tanto nas redes sociais como na imprensa, onde choveram as críticas contra Medvedev, que assumiu o cargo de primeiro-ministro em 2012 após um controverso mecanismo no qual devolveu a Putin a chefia do Kremlin.

A imprensa se encheu de comentários de professores de todo o país que não esconderam sua indignação e lembraram que em seus contratos de trabalho não figura a palavra "vocação", mas "direito", "dever", "lei" e "salário".

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, evitou fazer comentários sobre os pedidos pela renúncia de Medvedev, mas reforçou que as autoridades se mantêm fiéis à promessa de aumentar os salários dos professores feita por Putin após ser reeleito presidente.

Mas a bola de neve já estava enorme e os mais descontentes começaram a obter assinaturas para pedir a renúncia do primeiro-ministro na plataforma www.change.org.

"O governo deve ser liderado por uma pessoa competente, preparada e que trabalhe pelo bem do país. Agora acontece todo o contrário", afirma o pedido.

Fartos de seus comentários infelizes sobre a difícil situação econômica no país, a qual fez o número de pobres disparar para quase 20 milhões, em apenas três dias o pedido já havia somado mais de 220 mil assinaturas.

Apesar da drástica queda de seu poder aquisitivo, os russos não convocaram por enquanto protestos antigovernamentais, como tinham previsto alguns analistas, mas a falta de tato de Medvedev parece ter esgotado sua paciência.

Embora seja apenas um pedido por escrito, é endereçado ao presidente, Vladimir Putin, que defendeu com unhas e dentes o chefe do governo apesar de muitos considerarem que sua inação agravou ainda mais a atual recessão.

Recentemente o jornal "Financial Times" opinou que Medvedev será substituído após as eleições legislativas de 18 de setembro pelo ex-ministro de Finanças, Alexei Kudrin, destituído em 2011 por sua oposição a aumentar as despesas em Defesa.

Precisamente, Medvedev pediu a seu partido para não tentar "fazer lavagem cerebral" nos eleitores e ganhar o pleito parlamentar de maneira limpa, com o argumento de que "a verdade é a melhor arma durante a campanha eleitoral".

No entanto, se continuar dizendo "verdades", o primeiro-ministro russo se arrisca a beber de seu próprio remédio durante as próximas eleições.

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