Cidade do sudoeste da Colômbia se prepara para primeira "colheita da paz"

Liza Torres Salazar.

Trujillo (Colômbia), 14 ago (EFE).- Os 18 mil moradores do município de Trujillo, no sudoeste da Colômbia e de tradição cafeicultora, começam a trabalhar em sua primeira "colheita da paz", graças a um programa governamental para a restituição de terras usurpadas durante o conflito.

Segundo as autoridades, entre 1986 e 1994 grupos paramilitares de extrema direita assassinaram 245 habitantes dessa cidade localizada no departamento de Valle del Cauca, uma região agroindustrial do sudoeste do país.

"Os municípios de Trujillo e Riofrío sofreram as sequelas da onda paramilitar com Los Machos e Rastrojos, quadrilhas aliadas de narcotraficantes que exerciam o controle dos cultivos de coca da região", declarou à Agência Efe o comandante do Batalhão Palacé, tenente-coronel, William Fernando Caicedo.

Uma das testemunhas da tragédia ali vivida é Guillermo de Santa, um cafeicultor de 70 anos, que ainda lembra que os corpos flutuavam no rio Cauca, o segundo em importância da Colômbia, e que margeia esta região produtora de café.

"estou a vida toda fugindo da guerra. Eu conheço todo o monte. Desde que tinha sete anos, durante algumas noites minha casa foi a selva", relatou o homem ao se referir ao que sofreu durante a época da violência partidária de meados do século passado.

Entre as décadas de 1940 e 1950 a Colômbia foi palco de uma luta entre grupos políticos tradicionais de corrente liberal e conservadora que disputavam o controle do país e em cujo processo foram cometidas infinidades de assassinatos seletivos e desaparecimentos forçados.

Em 1991, aos 45 anos, o pesadelo voltou para o camponês. "Fugi para o monte pela segunda vez para me esconder, desta vez dos grupos paramilitares que entravam de noite no sítio para roubar as sementes de café", relembrou De Santa.

Para não morrer, ficou afastado de sua terra durante nove meses. Primeiro fugiu para o monte e depois para a cidade a fim de tentar uma nova vida porque "não suportava quando os paramilitares chegavam ao sítio, vestidos de preto".

Para a felicidade de Guillermo de Santa hoje já se evidencia a mudança. Agora, o povoado de La Sonora, a dez minutos de Trujillo, cercado de montanhas e de clima temperado, voltou a cultivar café.

"O governo me acompanhou durante o retorno a minha terra e me deu máquinas para secar o café", comentou De Santa, que faz parte dos 2.000 camponeses beneficiados pelo Estado com projetos produtivos.

"Os cultivadores conheciam a realidade dos paramilitares quando chegaram para tirá-los de suas propriedades, mas hoje o governo está chegando a esta região para ajudá-los, para que voltem a plantar", afirmou o diretor da Unidade de Restituição de Terras, Ricardo Sabogal.

Em 2011 o governo do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, lançou o programa de Restituição de Terras, que oferece às vítimas a possibilidade de retornar a suas atividades.

Atualmente, o mesmo governo tem em andamento um processo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em Cuba, a guerrilha mais antiga das Américas, que enche de otimismo o campesinato nacional.

Entre os eufóricos está Guillermo De Santa, que expressou sua crença em tal processo "para que me deixem viver meus últimos anos em paz".

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