Execuções arbitrárias deixam forças de segurança mexicanas no olho do furacão

Isabel Reviejo.

Cidade do México, 18 ago (EFE).- A denúncia da Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) do México de que a polícia federal executou 22 civis de forma arbitrária no município de Tanhuato em 2015 põe mais uma vez no olho do furacão as forças da ordem do país, já manchadas pelos casos de Ayotzinapa e Tlatlaya.

O relatório da CNDH sobre o incidente de 22 de maio de 2015 no rancho do Sol, no estado de Michoacán, que deixou um saldo de 43 mortos, aponta que houve uso excessivo da força por parte dos policiais, assim como tortura, manipulação de evidências e falsidade nas informações.

Em entrevista coletiva sobre o resultado da investigação, o titular da Comissão, Luis Raúl González, afirmou que houve 22 execuções arbitrárias de civis.

Apesar de não terem recebido disparos a curta distância - todos a mais de 90 centímetros -, se pode falar de execuções arbitrárias porque as vítimas "apresentavam uma posição de desvantagem em relação a seus agressores", declarou Ismael Eslava, primeiro visitante-geral da CNDH.

Além disso, quatro pessoas morreram pelo "uso excessivo da força": uma que recebeu um disparo do helicóptero que chegou ao lugar como reforço; duas que estavam escondidas desarmadas atrás de palmeiras, e outra que morreu no incêndio que aconteceu no interior de uma adega.

Em relação a outros 15 corpos com sinais de arma de fogo, a CNDH "não pode estabelecer tecnicamente as circunstâncias da morte e o grau de participação no confronto armado".

A apuração de vítimas mortais é completada por um policial federal e outro civil que mostram sinais de terem sofrido um atropelamento.

Por meio do depoimento de testemunhas, a CNDH confirmou que a polícia federal entrou no rancho "de maneira sigilosa" entre 6h20 e 7h30, o que contradiz a versão oficial, na qual os agentes relataram que chegaram ao imóvel entre 8h e 8h30.

Em um primeiro momento, chegaram 41 policiais, aos quais se somou o reforço de 54 agentes por terra e outros cinco no helicóptero, cujo artilheiro disparou 4.000 projéteis.

Desde que terminou a operação e até que iniciaram as diligências da Procuradoria Geral de Justiça do Estado de Michoacán (PGJE), os agentes federais "tiveram aproximadamente quatro horas para manipular o local".

Durante este tempo aconteceu a manipulação de sete corpos e foram colocadas deliberadamente armas de fogo junto a 16 corpos, destacou González.

Além disso, foram verificados atos de tortura e tratamento desumano e degradante aos três civis detidos após os eventos, que foram apontados como integrantes do Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG).

Quanto às irregularidades cometidas pela PGJE, a CNDH afirmou que tomaram referências inadequadas para a localização dos corpos e as armas, por serem objetos móveis e não fixos, não utilizaram um método de busca idôneo e as fotografias não foram feitas adequadamente.

Além disso, houve irregularidades nas necropsias praticadas em 42 vítimas mortais, incluindo o policial, assim como no reconhecimento e entrega de alguns dos corpos.

Por sua vez, Eslava acrescentou que, de acordo com testemunhos, os corpos ficaram "empilhados no chão" do Instituto de Ciências Legista de Morelia, cobertos de gelo e serragem, e uma foto comprovou como um corpo permanecia seminu sobre o piso molhado enquanto era manipulado pelos funcionários.

O titular da Comissão Nacional de Segurança (CNS), Renato Sales, aceitou as recomendações emitidas pela CNDH a sua instituição, mas declarou que neste caso não se configura "a hipótese de execuções arbitrárias" de 22 civis.

"O uso das armas foi necessário e se atuou, em nossa consideração, em legítima defesa", disse Sales após assegurar que os agentes se identificaram e exigiram aos civis que estavam no rancho que baixassem as armas e "a resposta foi com disparos de arma de fogo".

Após estes comentários, González pediu que a CNS revise o relatório em sua totalidade e que não se precipite com suas declarações sobre se houve ilegalidades ou não.

Os resultados da investigação da CNDH trouxeram à memória dos mexicanos casos como o de Tlatlaya, no qual 22 civis foram mortos por militares no Estado do México, e o de Ayotzinapa, no qual 43 estudantes desapareceram e foram supostamente assassinados por membros do crime organizado com a cumplicidade de policiais.

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