A história do genocídio cambojano escrita nos ossos das vítimas

Ricardo Pérez-Solero.

Takéo (Camboja), 22 ago (EFE).- Entre arrozais e coqueiros, a estupa de Kraing Ta Chan aparece no final de um pequeno caminho de terra no Camboja, com centenas de crânios e outros ossos que levam escrita a história do genocídio cambojano.

A antropóloga legista americana Julie Fleischman e o departamento de Arqueologia e Pré-História do Ministério de Cultura do Camboja concluíram em junho o segundo estudo sobre os restos ósseos das valas comuns do regime do Khmer Vermelho (1975-1979) em Kraing Ta Chan, na província de Takéo, localizada cerca de 90 quilômetros ao sul da capital Phnom Penh.

"O objetivo era determinar o que aconteceu com as pessoas, ou seja, como morreram. Temos os registros históricos e os testemunhos, mas ninguém voltou às evidências físicas, que são os ossos, para ver se as versões batem", declarou Fleischman à Agência Efe.

"Conservamos e restauramos os ossos, e agora mantemos provas para que o regime de Pol Pot nunca volte", disse, por sua vez, o diretor cambojano do departamento de arqueologia, Voeun Vuthy, durante a cerimônia budista realizada ao fim do estudo.

Chamado na República do Kampuchea Democrático de "irmão número um", Pol Pot liderou um regime que causou a morte de aproximadamente um quarto da população do Camboja (1,7 milhão de pessoas) em busca de uma utopia agrária comunista.

As cidades foram esvaziadas, o trabalho coletivo agrícola foi imposto e o país encheu-se de prisões e valas comuns para trancafiar os inimigos da Angkar (A Organização), ou seja, qualquer um que representasse a "corrupta" classe urbana local.

O grupo liderado por Voeun Vuthy foi pioneiro desde 2014 neste tipo de investigação no Camboja, primeiro nos "campos da morte" de Choeung Ek, associados à infame prisão S-21 de Phnom Penh, e, depois, na prisão Kraing Ta Chan, a principal da região sudoeste.

Cerca de 6.500 crânios foram analisados em Choeung Ek e aproximadamente 1.600 em Kraing Ta Chan. Também foram realizados trabalhos de conservação, segmentação demográfica segundo gênero e idade, além da classificação de acordo com o método de execução utilizado.

"O Camboja tem mais de 20 mil valas comuns com origem no período de Pol Pot", contou Voeun Vuthy. O número seria maior que o de qualquer outro país, mas somente cinco foram analisadas até o momento.

Segundo Fleischman, a política e a falta de financiamento e de formação acadêmica foram responsáveis pelos quase 35 anos de espera para a realização deste tipo de estudo no país.

"A política é um tema delicado, não foi particularmente popular, o povo não quer falar sobre isso ou sente que é demais difícil fazer isso", afirmou a americana.

"É caro, custa dinheiro, seja para contratar uma equipe local para fazê-lo ou contratar especialistas. E em geral, definitivamente, não foi uma prioridade", acrescentou.

Em 2001, o falecido rei Norodom Sihanouk (1922-2012) pediu ao primeiro-ministro, Hun Sen, que retirasse os restos da estupa de Choeung Ek e os cremasse segundo o rito budista, mas o chefe de governo se recusou para que fossem preservadas evidências dos crimes do Khmer Vermelho.

No caso do estudo de Kraing Ta Chan, o projeto foi financiado com uma subvenção de US$ 20 mil da Academia Americana de Ciências Forenses e uma campanha de crowdfunding iniciada por Fleischman que conseguiu arrecadar mais de 4 mil euros.

Na cerimônia em Kraing Ta Chan, os participantes levam o crânio das vítimas enquanto rodeiam por três vezes a estupa, antes de introduzir os ossos outra vez no macabro altar, entre rezas e rituais que garantem o descanso das almas.

Os ossos exumados em várias das valas comuns descobertas na principal prisão da região sudoeste revelam que a maioria das vítimas foram homens, mas que também foram mortas crianças e idosos com, em geral, um golpe na cabeça com objetos como uma barra de ferro.

Um dos poucos sobreviventes de Kraing Ta Chan, Soy Sen, contou em 2014 que os prisioneiros eram amontoados na prisão em rodízios de 400 pessoas e que a cada dia eram executadas de 20 a 30 pessoas.

"Fizeram as pessoas caminhar em fila e meu pai estava à frente do grupo. Ataram suas mãos a sua costas, lhe vendaram os olhos e bateram com uma enxada em sua cabeça", lembrou Soy Sen, forçado a trabalhar como coveiro durante o regime de terror do Khmer Vermelho. EFE

rps/rop/rsd

(foto)(vídeo)

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