Com dois divórcios e vida opulenta, Trump tenta conquistar tradicionais amish

Cristina García Casado.

Washington, 22 ago (EFE).- Os tradicionais amish, alheios ao barulho midiático das eleições americanas, são o alvo de um novo grupo de apoio a Donald Trump que pretende o impensável: convencer estas comunidades modestas e religiosas a votar em um multimilionário que já está em seu terceiro casamento.

"Eles sabem muito pouco de Trump. É provável que nunca tenham lido um tweet de Trump, visto um de seus comícios no YouTube ou acompanhado seus debates das primárias", disse à Agência Efe Ben Walters, cofundador do Amish PAC.

Eles se apresentam como o primeiro grupo de ação política (PAC) criado para mobilizar "as pessoas simples", como são conhecida as comunidades cristãs que mantêm um estilo de vida rústico e se concentram principalmente na Pensilvânia e em Ohio, estados que podem decidir as eleições de 8 de novembro.

Dentre eles, os amish são o grupo que mais resistiu à modernidade: são devotos protestantes anabatistas que conservam a vida singela do século XVI, proíbem a televisão e os computadores, alguns não usam nem eletricidade nem telefone, se deslocam em carroças puxadas por cavalos, vivem em áreas rurais e seus pilares são a família e a religião.

Conciliar estes valores com o candidato presidencial da opulência, do exagero, dos dois divórcios e uma vida pessoal transformada em espetáculo não parece tarefa fácil.

"Os amish reconhecem que todos temos falhas e eles provavelmente te diriam que rezam por Trump e deixam que seja Deus que o julgue", assegurou Walters, perguntado se sua fé lhes permitirá votar em uma pessoa que se casou três vezes.

"Eles acreditam que ele indicaria juízes conservadores e contrários ao aborto para a Corte Suprema e que comporia seu governo com conservadores sólidos. Além disso, acredito que a decisão de escolher Mike Pence (provado ultraconservador) como seu vice-presidente tranquiliza os amish", acrescentou.

Nos anúncios de campanha que o PAC colocou em jornais e placas de rua - os únicos veículos de comunicação para chegar ao eleitorado Amish - o candidato presidencial republicano é apresentado como um "bem-sucedido e familiar homem de negócios".

"Nunca foi eleito para um cargo público", "Seu negócio é realmente familiar", "Tem uma forte ética de trabalho", "Indicará juízes que protejam a liberdade religiosa e a liberdade individual", estas são algumas das frases usadas para descrevê-lo perante o eleitor amish.

Também reforçam que não bebe álcool, porque viu "o que ocorre quando as pessoas perdem o controle", já que seu irmão mais velho morreu jovem como consequência do alcoolismo extremo.

"Trabalhador, contrário ao aborto, dedicado a sua família, assim como você", anuncia um dos painéis publicitários que podem ser vistos há semanas nas estradas rurais dos condados de Lancaster (Pensilvânia) e Holmes (Ohio).

Com cerca de 70.000 amish em cada um, estes dois estados concentram a maior população desta comunidade na América do Norte, onde há um total de 308.030 distribuídos entre 31 estados dos EUA e três províncias do Canadá após sua emigração da Europa no século XVIII.

"É certo estimar que cerca da metade deles está em idade de votar", destacou Walters. Calcula-se que metade da população amish tem menos de 18 anos, segundo o Departamento de Estudos Amish da Universidade de Elizabethtown (Pensilvânia).

O PAC se apoia na ideia que as potenciais 35.000 cédulas amish de cada um destes dois estados-chave "poderiam fazer a diferença entre um presidente republicano e Hillary Clinton", sua rival democrata.

A grande maioria dos eleitores amish são republicanos e homens, embora sua participação eleitoral seja tradicionalmente baixa tanto por considerar que "o reino celestial de Deus está acima do reino material" como pela rejeição de alguns a votar em um "comandante-em- chefe", dados seus princípios pacifistas.

Por isso a grande tarefa do Amish PAC não é tanto convencê-los a votar em Trump e não em Hillary, mas abrir todas as portas para conseguir mobilizar este eleitorado reticente às urnas.

"Os amish não estão familiarizados com os anúncios políticos, por isso estamos em território inexplorado fazendo algo que não se fez até agora", comentou Walters.

O Amish PAC arrecadou por enquanto US$ 40.000 a partir de pequenas doações, uma quantia que consideram modesta, mas suficiente.

"Estamos começando com doadores maiores, mas de todos modos nós não somos o Super PAC que arrecadará milhões. Podemos atapetar o território amish com muito pouco dinheiro", declarou Walters, que espera que Trump visite estas comunidades, como fez em 2004 um George W. Bush que conquistou o coração dos amish no ano de sua reeleição.

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