Compra de armas dispara na Áustria com chegada de refugiados ao país

Antonio Sánchez Solís.

Viena, 24 ago (EFE).- A Áustria é um país seguro. Os índices de criminalidade voltaram a cair em 2015 e a taxa de homicídios é a mais baixa na Europa. No entanto, o sentimento de insegurança na população, um fenômeno com o qual a onda de refugiados tem muito a ver, provocou um aumento acentuado na venda de armas.

Dois dados contradizem este fenômeno de se sentir inseguro em um país seguro: Por um lado, a queda de 1,9% nos crimes relatados em 2015, em comparação com o ano anterior.

Por outro lado, um aumento de 11% no número de proprietários de armas no ano passado, uma tendência que começou quando centenas de milhares de refugiados chegaram na Áustria fugindo da miséria e da guerra.

"Obviamente, a sociedade civil não se sente segura. Essa sensação de segurança subjetiva foi embora e as pessoas parecem ter menos confiança no Estado e na polícia", explicou à Agência Efe Florentine Eichler, especialista do KFV, um instituto especializado em temas de segurança.

Eichler concorda com o sociólogo Reinhard Kreissl, diretor do Vienna Centre for Societal Security.

"O aumento coincide com a onda de refugiados. A psicologia por trás deste aumento também parece estar relacionada com o fato de que muitos cidadãos sentem que os agentes do Estado não estão em condições de cumprir suas funções", disse Kreissl à Efe.

Portanto, este analista acredita que "a compra de armas é uma manifestação de impotência" de parte da população.

Entre setembro de 2015 e março deste ano, centenas de milhares de refugiados cruzaram a chamada rota dos Balcãs em direção a Áustria, Alemanha e Suécia.

Nos últimos 16 meses, cerca de 114 mil pessoas pediram asilo na Áustria, 70% deles afegãos, sírios e iraquianos.

No entanto, a taxa de crimes cometidos por refugiados caiu pela metade em 2015, em comparação com o ano anterior.

Assim, de todos os estrangeiros, incluindo os comunitários, que cometeram crimes em 2015, só 15,6% eram refugiados, percentual semelhante aos turistas, 12,5%.

Na verdade, 40% dos estrangeiros que cometeram crimes eram cidadãos da União Europeia (UE).

O porta-voz do Ministério do Interior, Karl-Heinz Grundbock, reconheceu à Efe que não há nenhuma correlação entre a criminalidade e o medo do crime, e que este se desenvolve de forma "independente".

Um desenvolvimento em que os meios de comunicação desempenham um papel decisivo, segundo Kreissl.

"Contribuem para essa insegurança as fotos e informações de atos criminosos, cometidos supostamente por refugiados. As redes sociais, especialmente, que fomentam a propagação de lendas urbanas, frequentemente inventadas, mas que circulam amplamente", advertiu.

Kreissl argumentou que os preconceitos são mais fortes justamente nas áreas onde a população teve menos contato com o objeto de seus temores.

A região de Burgenland, na fronteira com a Hungria, e que durante meses foi a porta de entrada de milhares de refugiados, e Viena, por onde passou a grande maioria deles, são as áreas onde menos aumentaram os pedidos de licenças de armas: 9% e 8% respectivamente, em comparação com a média de 10,5 %.

Em respeito ao perfil do austríaco que decidiu se armar, Florentine Eichler afirmou que há de tudo.

"Temos desde desempregados a altos executivos de bancos. Passa por toda a população, todas as idades", analisou.

Entre os motivos que mencionam ao pedir uma licença para armas, destacam os da segurança pessoal e o tiro esportivo, uma razão que é apenas uma desculpa, segundo destaca o KFV, já que não houve um aumento das inscrições nos clubes de tiro.

Para Kreissl, o medo do refugiado é uma projeção de temores mais profundos na sociedade e que tem a ver mais com a incerteza sobre o futuro (emprego, pobreza e doença) que com uma ameaça imediata, como crime ou terrorismo.

Eichler advertiu que ter uma arma em casa (para sair com ela na rua é necessário uma permissão especial) não aumenta a segurança, essencialmente, porque ninguém tem a arma "debaixo do travesseiro".

Também lembrou o perigo em potencial do aumento de acidentes, ao ter mais armas em mãos privadas.

Ser maior de 21 anos, cidadão do Espaço Econômico Europeu, se credenciar em um curso de tiro e passar por um teste psicológico bastam para poder adquirir na Áustria uma arma da categoria B, que inclui revólveres, pistolas e semiautomáticas.

Florentine Eichler salientou que algo mais poderia ser feito para evitar que pessoas potencialmente perigosas tenham acesso oficial a uma arma.

Neste sentido, a especialista reivindica que o teste psicológico se some a uma entrevista pessoal que dê mais informações sobre o solicitante e que se impeça que o teste possa ser repetido de forma ilimitada até que seja aprovado.

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