Colômbia conta as horas para o silêncio dos fuzis com as Farc

Jaime Ortega Carrascal

Em Bogotá

  • BBC Mundo

Os colombianos contam neste domingo (28) as horas para o início nesta meia-noite do cessar-fogo bilateral e definitivo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), uma histórica decisão que encerra 52 anos de conflito armado no país, graças ao acordo de paz negociado com essa guerrilha em Cuba.

Na zero hora desta segunda-feira se iniciará o silêncio das armas e a suspensão das hostilidades entre o governo e as Farc, um confronto que marcou a história da Colômbia na segunda metade do século XX e no começo do XXI.

"Nós nos acostumamos tanto com guerra que nos esquecemos como se sente a paz, como se sente ser um país normal", disse hoje o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, durante a abertura em Bogotá da 38ª Caminhada da Solidariedade pela Colômbia.

Santos, que na quinta-feira passada anunciou o início do cessar-fogo definitivo por parte do governo a partir de 29 de agosto, afirmou que "a guerra se tornou parte da paisagem" do país e que seus compatriotas "esqueceram os tremendos dramas humanos acarretados por essa dor, esse atraso gerado por este conflito".

"Mais de meio século de guerra nos deixou anestesiados, acostumados a que a cada dia morressem compatriotas, soldados, camponeses, guerrilheiros, por causa deste confronto absurdo", acrescentou o chefe de Estado.

O cessar-fogo e de hostilidades definitivo por parte das Farc a partir da meia-noite deste domingo também será anunciado esta tarde em Havana pelo chefe máximo dessa guerrilha, Rodrigo Londoño Echeverry, conhecido como "Timochenko".

"Com muita emoção preparando o anúncio mais importante que precisei fazer em minha vida, perante o mundo e a Colômbia", escreveu "Timochenko" em sua conta no Twitter horas antes do anúncio.

O cessar-fogo é uma das conquistas mais palpáveis do acordo de paz que as partes rubricaram na quarta-feira passada na capital cubana, como resultado de 45 meses e cinco dias de intensas negociações para pôr fim ao conflito com a guerrilha mais antiga e poderosa do país.

Desde o começo da negociação Santos defendeu a tese que o cessar-fogo devia acontecer na fase final do processo e não no começo para evitar que qualquer incidente armado arruinasse os diálogos em Cuba.

No entanto, desde 20 de julho de 2015 rege o último cessar-fogo unilateral das Farc como medida para gerar confiança no processo de paz, que foi respondido pelo governo com a suspensão de bombardeios a acampamentos dessa guerrilha, o que reduziu de maneira considerável a intensidade do conflito.

"Este período de 13 meses continua sendo o de menor intensidade do conflito em seus 52 anos de história, em número de vítimas, combatentes mortos e feridos e ações violentas", constatou em seu mais recente relatório o Centro de Recursos para a Análise de Conflitos (Cerac).

A redução das ações armadas é evidente nas zonas rurais onde, ao longo das últimas cinco décadas, se concentrou o conflito e onde o povo vê com esperança a chegada da paz, que começa com o cessar-fogo, um passo em direção ao abandono de armas e desmobilização por parte dos guerrilheiros, que se completará em um prazo de 180 dias a partir da assinatura do acordo.

Segundo o relatório do Cerac, durante o último mês esse organismo "não registrou ações nem das Farc nem da polícia contra esta guerrilha, evidenciando um cumprimento completo das partes dos compromissos bilaterais" que tinham caráter provisório e que a partir da meia-noite de hoje serão permanentes.

Com a entrada em vigor do cessar-fogo ficam pendentes outros passos do processo, como a décima conferência das Farc, na qual renunciarão à luta armada e decidirão sua transformação em partido político, que será realizada entre os dias 13 e 19 de setembro no sul do país.

Igualmente falta a assinatura protocolar do acordo de paz, em um local e data ainda a definir, mas que será entre os dias 20 e 26 de setembro, e o plebiscito de 2 de outubro no qual os colombianos dirão nas urnas se aprovam ou não o que foi estipulado.

Completados esses passos, em um prazo de seis meses, ou seja em março do próximo ano, deverá estar concluída a desmobilização das Farc e os colombianos poderão entrar definitivamente em uma era de paz e de pós-conflito.

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