Moradores de Damasco, a "pior cidade do mundo", tentam manter vida social

George Bagdadi.

Damasco, 4 set (EFE).- A guerra é rotineira em Damasco, os disparos de artilharia marcam o ritmo à distância, os controles de segurança desaceleram o tráfego, e o preço de todos os produtos disparou, mas a vida social da cidade, uma das capitais árabes com mais história, não se paralisou.

Damasco foi catalogada este ano pela revista "The Economist" como a pior cidade do mundo para se viver, e o conflito armado que faz o país sangrar há cinco anos é a razão que está por trás desta classificação, apesar de os moradores seguirem com suas vidas, tentando inclusive não abrir mão do lazer.

Na área de Bab Sharqui, na parte antiga da cidade, onde no ano passado costumavam cair frequentemente projéteis lançados pelos rebeldes, agora os jovens fumam narguiles e se juntam para ver jogos de futebol nos bares.

"Sair para um bar era algo impensável até poucos meses atrás. Estou cansado da guerra, preciso viver uma vida normal", disse à Agência Efe um estudante de engenharia agrícola de 22 anos que se identificou como Sameh.

"A maioria das pessoas vem (a este bar) para se distrair um pouco, apesar de todos os problemas que assolam o país", acrescentou o jovem.

A capital síria segue repleta de grupos armados opositores, e os combates e bombardeios continuam diariamente nos arredores, mas na Ópera de Damasco homens de terno e gravata e mulheres com longos vestidos aplaudem os espetáculos exibidos ali nos últimos dias.

Pela noite, jovens fazem fila nos cinemas e a música soa nas cafeterias tradicionais onde se fuma narguile, assim como nos restaurantes, que costumam estar cheios nos horários de almoço e jantar.

As pessoas já quase não reagem ao escutar uma explosão ou a cada vez que acontece um corte de luz.

Durante o dia, as ruas da cidade estão cheias de atividade e nas lojas não faltam clientes, como na conhecida sorveteria Bakdash, localizada no mercado histórico de Damasco.

Tudo isso apesar de os preços terem disparado desde o começo do conflito em 2011 e a moeda local ter se desvalorizado de 47 libras sírias por US$ 1 para 450 libras na atualidade, enquanto o salário mínimo é de 20.000 libras (cerca de US$ 40).

O mais caro na capital é a moradia, devido à grande demanda pela chegada de deslocados de outras áreas do país mais afetadas pela violência. O aluguel de um apartamento de dois quartos custa cerca de 70.000 libras sírias por mês.

Já o preço do combustível para veículos e geradores elétricos - que se tornaram indispensáveis devido aos frequentes cortes de luz - se triplicou, e o de alguns bens se multiplicou, como a água engarrafada, que passou de custar 15 libras a 150 libras.

Os alimentos encarecem a cada dia, embora o governo continue subsidiando alguns itens básicos como o arroz e o açúcar, mas a carne de cordeiro é vendida agora a 3.100 libras o quilo, frente a 600 libras de cinco anos atrás, e os tomates, que custavam 15 libras, agora não são comprados por menos de 200 libras.

Além das penúrias e perdas econômicas, com muitos negócios forçados a fechar nos últimos anos, os moradores de Damasco também sofreram perdas humanas, e não há sírio que não tenha pelo menos um amigo ou um parente que morreu na guerra.

"Para muitos ficou muito difícil viver aqui. Não há gás nem eletricidade nem água", afirmou à Efe Aziz, um engenheiro informático de 35 anos que decidiu permanecer apesar de tudo.

"Os que nos ficamos sabemos que estamos fazendo uma aposta arriscada. Em qualquer momento, você pode morrer por um (projétil de) morteiro ou uma explosão", constatou.

"Mesmo assim, eu fico e, não importa o que aconteça, vou ficar", concluiu Aziz com um sorriso.

A atividade continua e as crianças voltarão ao colégio agora em setembro, apesar de 4,7 milhões de lares terem sido destruídos e 7,5 milhões de pessoas estarem deslocadas, além das 3,5 milhões que abandonaram o país e as 270.000 que morreram; porque na pior cidade do mundo para viver segue havendo vida.

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