Nova lei tenta impedir que construção de igrejas se torne "milagre" no Egito

Azza Guergues.

Cairo, 6 set (EFE).- O sacerdote do pequeno povoado de Mit Nama, Bimin, está há 14 anos argumentando sem sucesso com o governo do Egito para construir um templo religioso. Agora, após a recente aprovação de uma lei para a construção de igrejas, voltou a separar todos os documentos para enfrentar uma nova batalha que espera seja a última.

Em 2002, o padre copta comprou um terreno para construir um edifício religioso, depois de descartar a ideia de construir uma igreja para cerca de cinco mil cristãos que vivem em Mit Nama e outras quatro cidades próximas, já que necessitava de uma permissão assinada pelo presidente do país.

Depois de anos pedindo permissão para as forças de segurança e o governador da província, Bimin conseguiu a autorização em 2011, mas sem poder começar a construção.

"Toda vez que queremos construir, as pessoas (da cidade) nos proíbem", relatou à Agência Efe, o sacerdote, com uma longa barba branca e vestido com a batina tradicional dos coptas.

Com a permissão de construção do edifício na mão e um semblante sério, Bimin narrou a história refugiado na casa de Emad, um morador cristão da cidade.

Na ausência de uma igreja em Mit Nama, Emad, que mora na região desde 1985, foi obrigado a viajar até o bairro de Shubra, no norte do Cairo, para velar o corpo de sua mãe quando ela morreu.

"Apelamos para as forças de segurança e nos disseram que, devido à difícil situação do país, devíamos esperar um pouco", acrescentou o sacerdote, enquanto mostrava o terreno destinado à igreja, hoje transformado em um depósito de lixo.

Para Bimin, a nova lei aprovada pelo parlamento egípcio é "boa", mas precisa que "as intenções sejam verdadeiras" para levá-la adiante.

Na terça-feira da semana passada, após semanas de negociações entre as distintas igrejas e o governo, o parlamento egípcio finalmente aprovou a lei para a construção de igrejas.

Pelo menos no papel este regulamento "confirma e organiza o direito dos cidadãos cristãos egípcios de construir e restaurar as igrejas para garantir sua liberdade de celebrar todos os ritos religiosos".

No entanto, para a Iniciativa Egípcia pelos Direitos Pessoais, a lei "está cheia de "minas" que impedem não apenas a construção de igrejas, mas também sua restauração.

"(A lei) dá muito poder para as autoridades violarem o direito de construir igrejas", disse a organização não governamental em comunicado.

O responsável pelo programa de liberdade de religião e crença da Iniciativa, Ishaq Ibrahim, explicou à Agência Efe que a nova lei não impede que as forças de segurança proíbam a construção de um templo cristão e que os órgãos de segurança continuam "controlando" este assunto.

"É uma lei intolerante, porque construir uma igreja deveria ser tão normal como construir uma mesquita", comentou Ibrahim.

No Egito há pelo menos cinco mil igrejas para os cristãos coptas, que representam 12% da população, segundo dados da ONG.

Apesar desses números, há décadas a construção de igrejas costuma provocar violência sectária no Egito, um país de milhares de povoados com cristãos sem este tipo de templo.

Para Bimin, a solução passa pela necessidade de a sociedade egípcia assumir sua diversidade religiosa.

"A lei deve estar no pensamento das pessoas e não deve passar desapercebida", concluiu.

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