Cuba exige fim de bloqueio "anacrônico" em nova relação com EUA

Sara Gómez Armas.

Havana, 9 set (EFE).- O governo de Cuba intensificou nesta sexta-feira sua reivindicação para que os Estados Unidos ponham um fim no "bloqueio", uma política "anacrônica e obsoleta" no novo contexto de relações entre os dois países e que ocasionou à ilha danos acumulados de mais de US$ 750 bilhões desde sua implementação em 1962.

"O bloqueio persiste, prejudica o povo cubano. Não há família cubana que não sofra seus efeitos. Carências, dificuldades, privação. Isso é parte da vida cotidiana dos cubanos", afirmou hoje o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, na apresentação do relatório "Cuba vs Bloqueio".

Este documento é a base da resolução que a ilha submete à votação a cada ano na Assembleia Geral da ONU desde 1992.

Segundo o relatório, de abril de 2015 até março 2016, quando aconteceu a visita a Cuba do presidente americano, Barack Obama, os danos dessa política "imoral e desumana" somaram US$ 4,68 bilhões.

As quase seis décadas de embargo econômico a Cuba e seus efeitos extraterritoriais implicam para a ilha prejuízos acumulados de US$ 753,6 bilhões, segundo o valor do ouro, número que representa em preços correntes US$ 125,87 bilhões.

No próximo dia 26 de outubro será submetida à votação a resolução de Cuba pelo fim do embargo, que no ano passado contou com o apoio de 121 países, com os votos contrários apenas de EUA e Israel.

"Ninguém ignora nem pretende esconder nossos problemas, nossas limitações, nossos erros, que são de nossa responsabilidade. Mas não deveria ser subestimado que o efeito do bloqueio é a causa principal dos problemas de nossa economia e o obstáculo principal para nosso desenvolvimento", sustentou Rodríguez.

O chanceler também reconheceu que as medidas executivas aprovadas desde 17 de dezembro de 2014 por Obama para suavizar o impacto do embargo "vão na direção correta", mas destacou que muitas "não poderão funcionar enquanto o bloqueio seguir vigente".

"Enquanto se aplicar a proibição do comércio, ou seja, que Cuba não possa nem exportar nem importar dos EUA, nem se permita a empresas desse país investir em Cuba, essas medidas não são viáveis", salientou.

Rodríguez denunciou ainda que a medida aprovada por Obama às vésperas de sua visita, que permitia a Cuba a utilização do dólar em suas transações financeiras internacionais, "não se materializou", já que o governo da ilha não pôde realizar nestes meses "nem pagamentos nem depósitos com dinheiro em dólares".

"É muito pesado o efeito intimidador dos US$ 14 bilhões aplicados como multas, recorde mundial do período da presidência de Obama, fundamentalmente contra bancos europeus e asiáticos. Nos bancos ninguém esquece o passado e se requer muita segurança jurídica", detalhou o chanceler.

Rodríguez admitiu que nos 21 meses transcorridos desde o restabelecimento das relações se produziram "avanços significativos", embora muitos deles, como os acordos alcançados em matéria de telecomunicações entre os dois países, tenham "propósitos políticos para mudar Cuba".

"É uma pena que essas medidas sejam politizadas em um âmbito que reivindica o livre fluxo de informação, a capacidade das pessoas de acessar o conhecimento e fornecer conhecimento às redes", disse.

O chanceler também afirmou que o outro âmbito que se beneficiou das medidas executivas da administração Obama é o incipiente setor privado da ilha, ao qual "querem empoderar para promover mudanças dentro de Cuba, algo que só é assunto dos cubanos".

"As medidas executivas vão na direção correta, mas são também limitadas em seu alcance e profundidade", ressaltou Rodríguez, que insistiu que a vigência do embargo, cujo fim depende do Congresso americano, é o principal empecilho para a normalização das relações.

Segundo o chanceler, se os Estados Unidos têm realmente uma "democracia funcional", o Congresso não pode atuar de costas para os americanos, que apoiam majoritariamente o fim do embargo e a normalização das relações com a ilha.

"O bloqueio está com os dias contados", afirmou Rodríguez, embora tenha considerado que o governo de Barack Obama "poderia atuar de maneira mais decidida e direta" para aliviar o impacto dessa política antes do fim de seu mandato, no início do próximo ano.

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