Eslováquia, o arsenal clandestino da Europa

Gustavo Monge.

Praga, 12 set (EFE).- Um vazio legal, a falta de controles e a busca por benefícios econômicos fizeram da Eslováquia um dos principais fornecedores do mercado negro de armas, ao qual recorrem desde terroristas islamitas até a máfia italiana.

A pistola Glock 17 usada em julho para balear 10 pessoas em Munique e o fuzil AK 47 que um terrorista usou para tentar cometer um atentado em 2015 no trem que fazia a rota Amsterdã-Paris são algumas das armas de origem eslovaca que um dia foram vendidas legalmente após ficarem, em teoria, inutilizadas.

Uma recente investigação da rede jornalística Colaborações de Investigação na Europa (EIC) afirma que algumas armas usadas nos atentados de Paris de janeiro de 2015 também foram adquiridas legalmente no país centro-europeu.

Até o ano passado, a legislação eslovaca permitia que antigas armas, muitas provenientes de extintos arsenais do exército tcheco, pudessem ser vendidas legalmente após terem sido inutilizadas para que não pudessem disparar munição real.

Em muitos casos, a técnica utilizada era manipular o canhão, algo fácil e econômico de reverter para que a arma volte a ser perfeitamente operacional e letal.

"Gente do mundo todo está furiosa porque a Eslováquia estava operando uma liquidação online de armas", denunciou recentemente o ativista eslovaco Martin Debeci em declarações ao jornal "The Slovak Spectator".

Segundo este especialista em temas de Defesa, a Eslováquia criou um problema com consequências em nível europeu.

Segundo a investigação da EIC, publicada pela revista alemã "Der Spiegel", desde sua entrada na União Europeia (UE), em 2004, a Eslováquia tinha uma regulação defasada sobre a inutilização de armas de fogo para transformá-las em armas de festim.

A gravidade era tal que a polícia eslovaca advertiu à UE em setembro de 2013 sobre a facilidade com que as armas podiam ser compradas - sem obrigação de serem registradas - e reativadas.

No entanto, o alerta eslovaco se perdeu na burocracia comunitária e nada foi feito para controlar a venda e uso dessas armas desativadas.

A advertência eslovaca citava como exemplo o rifle automático Ceska vz.58, a arma padrão usada pela Tchecoslováquia.

Duas dessas armas foram usadas pelo terrorista Amedy Coulibaly para matar quatro pessoas em um supermercado judaico em Paris em janeiro de 2015, dois dias depois do massacre na redação da revista de humor "Charlie Hebdo".

Esses rifles, fabricados na década de 1960, tinham sido inutilizados como arma de fogo pela empresa eslovaca Kol Arms.

O terrorista islamita os adquiriu depois em uma loja situada na cidade de Partizánske, ao nordeste de Bratislava.

Segundo estimativas das autoridades alemãs, esta mesma loja eslovaca vendeu cerca de 14.000 dessas armas inutilizadas, principalmente pela internet.

Os recentes atentados em vários países europeus forçaram o governo eslovaco a aprovar uma nova legislação, em vigor desde o último dia 1º de janeiro.

Agora são exigidos métodos mais complexos e caros de reverter para inutilizar as armas e que os compradores as adquiram de forma registrada e pessoalmente, acabando assim com a venda online.

A nova legislação obriga também que se evidencie toda a vida da arma até sua liquidação e o trâmite para sua inutilização, algo que deve estar confirmado por um escritório estatal eslovaco.

Outra parte do problema está nos possíveis desvios ao mercado negro de armas vendidas legalmente pelo exército eslovaco, no programa de liquidação de arsenais obsoletos.

Debeci citou como exemplo a venda à Arábia Saudita de 40.000 fuzis de assalto tchecoslovacos.

Levando em conta que o país árabe tem um dos exércitos mais modernos da região, é duvidoso que vá ficar com esses equipamentos, alertou o especialista.

Segundo Debeci, essas armas poderiam cair em mãos de grupos radicais como o jihadista Estado Islâmico (EI).

O governo eslovaco respondeu de forma pragmática às críticas sobre essas operações.

"As armas são um produto comercial normal. Se as empresas eslovacas não as vendem, outros farão isso", chegou a declarar o primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico.

Fico foi um dos líderes europeus que mais insistiu em que a chegada de refugiados fazia aumentar o risco de atentados terroristas na Europa.

Por sua parte, a associação de proprietários de armas Legis Telum assegura que é exagerado assinalar a Eslováquia como um "arsenal de terroristas" e adverte para outro perigo.

Ludovit Miklanek, vice-presidente desta associação, garantiu em declarações à Efe que o verdadeiro problema para a Eslováquia é o transporte de armas à Ucrânia.

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