B'Tselem, 10 anos de vídeos que expõem a ocupação israelense da Palestina

María Sevillano.

Jerusalém, 14 set (EFE).- Há dez anos, a ONG israelense B'Tselem pôs câmeras de vídeo nas mãos de palestinos e lhes pediu que gravassem tudo aquilo que viam com seus olhos diariamente na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental: os perversos efeitos da ocupação israelense em seu dia a dia.

A organização, que se dedica a evidenciar as violações de direitos humanos nos territórios ocupados, encontrou assim uma maneira de mostrar a violência, as restrições, a dor e as injustiças que os palestinos sofrem em uma vida de políticas discriminatórias, colonização e presença militar israelense permanente.

Com seus vídeos, a ONG mostrou ao mundo execuções, abusos, maus-tratos, humilhações e cenas difíceis de imaginar e que evidenciam o medo que uma família sofre em uma batida noturna, a dificuldade de atravessar um posto de controle do exército a cada dia, as agressões de colonos radicais e a tristeza de uma menina ao perder sua bicicleta pelas mãos de um soldado.

"Começou como um exercício simples: pedimos a uma família em Tel Rumeida (bairro em Hebron onde existe uma colônia) que gravasse o que acontece em sua rua. A gravação mostrava uma colonizadora abusando verbalmente de uma mulher, chamando-a de sharmuta (prostituta, em árabe) e, assim, exibimos pela primeira vez a realidade dos palestinos na Cisjordânia", comentou à Agência Efe a porta-voz da B'Tselem, Sarit Michaeli.

Seus vídeos se transformaram em virais quando o mundo sequer sabia o que era viral e começaram a expor uma realidade com a qual a maioria dos israelenses não está familiarizada e que, além disso, muitos não querem conhecer.

A ONG chegou a ter cerca de 200 câmeras funcionando, operadas por centenas de voluntários.

"Nossos vídeos mostram um olhar interessante e complexo para esta realidade. Muitas vezes parece que todas as histórias já foram contadas ou que outras não são importantes, mas o principal objetivo é mostrar o que significa esta rotina", explicou a porta-voz.

Para Sarit, os vídeos são impactantes porque "a injustiça da ocupação é imensurável, mas, às vezes, uma imagem ou um vídeo curto, de alguma maneira, contém e reflete a essência desta injustiça".

Apesar de a organização ter começado com a ideia de usar as imagens para apresentar provas em investigações sobre violações de direitos humanos por soldados e colonos, Sarit tem "muito pouca confiança" de que os vídeos ajudem a atribuir responsabilidades "mesmo se há uma forte evidência gráfica".

Por outro lado, a porta-voz destacou que os testemunhos foram de grande ajuda para inocentar nos tribunais palestinos acusados de jogar pedras e insultar soldados durante enfrentamentos.

Dez anos depois, Sarit acredita que o mais importante é o debate o que os vídeos geraram na sociedade israelense, pondo sobre a mesa temas que provavelmente não seriam abordados sem sua existência.

É o que aconteceu com o recente caso de Elor Azaria, um soldado que enfrenta um julgamento midiático depois que um voluntário da B'Tselem, Imad Abu Shamsiyeh, registrou o momento em que o mesmo executava com um tiro na cabeça o palestino Abdel Fatah al Sherif, que estava ferido e rendido no chão, depois que o mesmo tentou atacar outro soldado em Hebron.

Há meses esta história divide a sociedade israelense, que frequentemente se mostra indiferente ou alheia a esses incidentes, e abriu uma discussão pública sobre o uso da violência e suas consequências.

Também houve outros efeitos, como as ameaças que Abu Shamsiyeh afirma ter recebido após a divulgação do vídeo.

Esta é uma amarga experiência à qual se expõem os colaboradores, contou à Efe a coordenadora de voluntários Manal Al Jaabari, que relatou que uma das práticas de pressão mais comuns são as ligações telefônicas de desconhecidos para ameaça-los, exigindo que não filmem.

"Normalmente me insultam, me inspecionam diariamente e recebo ameaças de morte de colonos", disse à Efe Suzan Jaber, de 38 anos, que nos últimos três gravou com sua câmera prisões, ataques e demolições de casas em Hebron. A vontade de documentar vence o medo.

"As coisas que ficam marcadas com o projeto são a humilhação, a degradação, e o sentimento de superioridade que refletem os colonos... E as interações entre israelenses e palestinos na Cisjordânia. Esta é uma mensagem muito importante, se levamos em conta que os palestinos têm que passar por isso todos os dias de sua vida há 50 anos", opinou Sarit.

"Acredito que (os vídeos) ajudam as pessoas a entenderem por que (os palestinos) estão tão desesperados para terminar com a ocupação. Estas são coisas que são difíceis de descrever quando você fala com alguém, mas um vídeo pode ajudar a transmitir esses sentimentos", concluiu a porta-voz.

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