Macri: "América Latina não pode dar as costas ao que acontece na Venezuela"

- "O regime de Maduro não cumpre os requisitos para fazer parte do Mercosul".



- "A desapropriação da YPF sofrida pela Repsol foi um abuso e uma violação de nossa Constituição".



- "O populismo gera frustração, desgosto, violência e destrói o futuro".



José Antonio Vera e Pedro Damián Diego.

Buenos Aires, 15 set (EFE).- Texto na íntegra da entrevista exclusiva do presidente da Argentina, Mauricio Macri, realizada pela Agência Efe em Buenos Aires:



Pergunta: Senhor presidente, governar a Argentina está sendo mais difícil do que imaginava? Sente-se à vontade na Casa Rosada?

Resposta: Me sinto à vontade, comprometido. Eu amo meu país, sou apaixonado pelo povo deste país, por isso me comprometi a liderá-lo rumo ao crescimento que de todos precisamos e para onde estamos indo. Sem dúvida, o ponto de partida foi muito ruim porque a crise econômica que o governo anterior deixou, repleta de corrupção e de mentira, não foi o melhor ponto de partida, mas por sorte nós argentinos temos a capacidade de nos recuperar e estamos apaixonadamente comprometidos a conseguir.

P.- Os senhores prometeram controlar a inflação, mas vemos que continua nas nuvens. Pode ser considerado um fracasso de seu governo? Também prometeu 'pobreza zero', mas as estatísticas dizem que ainda continua a haver muitos pobres no país.

R.- Primeiramente, imagino que nem na Espanha, nem em nenhum lugar do mundo as coisas são feitas de um dia para o outro, nem de um ano para o outro, nem sequer um mandato na presidência. Quando dissemos que um eixo nosso fundamental na Argentina é a "pobreza zero", é um caminho que por sorte já começamos a percorrer. Se alguém revisar estes nove meses de governo, a cada dia estamos melhor. Por exemplo, com a inflação ninguém acreditava, da mesma forma que ninguém acreditava que sairíamos do zero e unificaríamos a taxa de câmbio em uma semana e cancelaríamos o conflito com os 'holdouts' em três meses. Dissemos: vamos diminuir a inflação no segundo semestre, e a inflação, que estava em 40%, agora tem taxas que projetam menos de 20%, e vamos continuar trabalhando, porque, claramente, para um espanhol, dizer que estamos em 20% continua sendo inaceitável. É para a Argentina, e vamos trabalhar duramente para que em três anos estejamos em um dígito, como a maioria dos países.

P.- Entre seus opositores, garantem que em seu governo há muita fachada e pouco fundo, que os senhores são um governo de ricos, e por isso não entendem os pobres. Realmente em seu governo há mais fundo que fachada?

R.- Eu sinto que cumpri uma das promessas que fiz aos argentinos: armar a melhor equipe de governo dos últimos 50 anos. Formada por gente que me acompanhava nestes dez anos que estou na política, na gestão da cidade (de Buenos Aires, como prefeito), em nível nacional. Muita gente que nunca tinha feito política, que vem de sua atividade privada. Acredito que apresentamos outro horizonte, outro ritmo, outra vocação e, sobretudo, um nível de transparência que era fundamental, que a Argentina estava precisando na gestão pública. Tendo que tomar decisões muito duras, difíceis, dolorosas, as fizemos sempre pensando naqueles que são mais vulneráveis, os que primeiro sofrem quando o desengano chega frente as propostas não realistas, ou populistas que tivemos na Argentina. Trabalhamos muito, por isso hoje temos mais de dez milhões de argentinos que receberam um apoio social adicional ao que recebiam antes de chegarmos para poder atravessar este caminho entre onde estamos e aonde queremos ir.

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Interesse inédito.

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P.- No exterior, a Argentina e, concretamente, sua pessoa têm uma imagem excepcional, mas vemos que nas ruas, de vez em quando, há piquetes, protestos. Está melhorando realmente a qualidade de vida dos argentinos desde que assumiu?

R.- É verdade que a Argentina hoje desperta um interesse quase inédito em sua história. Há um enorme entusiasmo, por isso mais de 2.000 pessoas de 67 países vieram a este fórum de negócios (em referência ao Fórum de Investimento e Negócios da Argentina que termina hoje). Internamente, a Argentina desenvolveu, e isso é algo bom, a qualidade de se expressar. Estou muito contente que uma das coisas com as quais contribuí com a Argentina é a liberdade de expressão absoluta, e cada um se expressa da maneira que sente. Algumas formas temos que corrigir com o tempo, porque uma pessoa não pode se expressar de uma maneira que dificulte a vida do outro. Mas também é preciso entender que a Argentina vem de momentos de muita frustração. Muito foi prometido, muitas coisas foram ditas e não eram verdade. Na Argentina, hoje, há mais de 30% da população na pobreza. Isso vai levar muitos anos de trabalho, mas, insisto, o importante é que começamos, já começamos a percorrer o caminho do investimento, do desenvolvimento, da aposta no emprego, da aposta no esforço pessoal. Não mais o facilismo, não mais crer em receitas mágicas.



Déficit fiscal.



P.- O tema da energia levantou grande expectativa não só dentro do país, mas fora. Em primeiro lugar, pelo quão baixas eram as tarifas, pelo reajuste que os senhores fizeram e, agora, por este tropeço na Suprema Corte. Como vão abordar este problema depois da decisão da Suprema Corte?

R.- Bem, como corresponde. Aceitando a decisão da Corte em uma Argentina que tem uma nova institucionalidade. Fazemos a audiência (pública) nesta sexta-feira, esperamos a partir daí apresentar o relatório final e aumentar as tarifas em um caminho em três anos que nos leve aos preços internacionais. Como todo país normal, cada um tem que pagar a energia que consome, como acontece na Espanha. Exceto aqueles para quem criamos a tarifa social. (Estamos) muito preocupados com as pessoas de menos recursos, mas os demais temos que pagar o que consumimos, e o mais importante... tentar consumir o menos possível, porque isso polui o meio ambiente, e a energia é um recurso não renovável, salvo as novas energias que estamos lançando também.

P.- E o Orçamento da nação que estão a ponto de aprovar, transtornou muito este tema da decisão da Suprema Corte de suspender os aumentos nas tarifas do gás?

R.- Não, não, já o terminamos, vamos apresentá-lo nestes dias, e vai ter uma gradual redução do déficit fiscal. O mesmo que a Espanha está fazendo.



Venezuela



P.- Como vê a situação política da Venezuela?, Acredita que um regime como o da Venezuela pode fazer parte do Mercosul?, A oposição está fazendo tudo o que deveria ou deveria ser mais dura?

R.- Vejo uma situação ruim. Tudo o que está acontecendo na Venezuela, vejo ruim. Me preocupa, me desespera, porque a cada dia está pior, a cada dia mais gente sofre as consequências, a cada dia vale menos a vida das pessoas, cada vez mais são violados os direitos humanos, e claramente a América Latina não pode dar as costas ao que está acontecendo. Não podemos conviver com o que está acontecendo. Essa é minha posição. A expressei e a sustento. A Venezuela não cumpriu os requisitos, nem cumpre o o que acredito que deve ser para ser parte do Mercosul.

P.- E, seguindo neste tema, o senhor está mais próximo das posições de Felipe González ou das de José Luis Rodríguez Zapatero?

R.- Não exatamente em todos os temas, mas por história diria que de Felipe González.

P.- Por que os senhores, de toda a região latino-americana, são o governo que mais apoia o presidente do Brasil, Michel Temer, também muito criticado nas ruas nos últimos tempos?

R.- Não sei qual é esse ranking, não o vi, de quem o apoia mais. O Brasil é o parceiro estratégico da Argentina, somos muito respeitosos quanto aos processos institucionais do Brasil, e nesse caminho trabalhamos com o que o povo brasileiro decidir. Se estava Dilma, trabalhamos com Dilma, se está Temer, trabalhamos com Temer, porque está bem para o Brasil, está bem para a Argentina e vice-versa. Queremos cooperar: essa é nossa ideia de futuro respeito do Mercosul.



O papa.



P.- Se diz que há tensão entre o papa e o senhor. Ao senhor o papa dedicou na última audiência 22 minutos, mas a (Hebe) Bonafini (líder das Mães da Praça de Maio) deu duas horas. Diz-se que o papa é peronista, o que tem que dizer?

R.- Que eu e o papa nos conhecemos há muito tempo. Ele foi bispo de Buenos Aires, eu era o prefeito. Portanto, sei a boa relação que tenho com o papa, o respeito mútuo que temos. Vou em outubro a Roma pela santificação do padre (José Gabriel) Brochero, ele me pediu que vá com minha mulher e com minha filha, Antonia, que tem quatro anos, a quem quer saudar outra vez. Deixo como parte das interpretações, que às vezes são errôneas.

P.- O senhor sabe que nunca um político não peronista terminou seu mandato na Argentina, Por que seu caso vai ser diferente?

R.- Porque estou aqui por decisão do povo. Os argentinos decidiram uma mudança, a mudança veio de baixo para cima, não de cima para baixo. Esta mudança tem a ver com fazer política de outra maneira, e o peronismo tem que fazer uma profunda autocrítica porque governou quase de forma contínua durante décadas, e o que temos hoje na Argentina é mais pobreza, mais exclusão, mais injustiça. Acredito que nesse caminho vamos governar incorporando todo mundo. Os senhores viram aqui neste fórum todos os governadores que puderam vir, também os do peronismo, com os quais trabalhamos lado a lado. Esta é uma Argentina diferente, com a qual entendemos muitas coisas. A realidade é que esta Argentina representa uma Argentina mais madura.



P.- Que o senhor espera deste fórum para a Argentina?

R.- Que muitos dos que vieram, por exemplo, estive com um egípcio que veio, ninguém sabe como chegou, muito importante empresário, o mais importante de lá, apaixonado pela Argentina, querendo investir em três ou quatro setores. Muitos dos que vieram chegaram à conclusão de que não há melhor lugar para investir neste momento no mundo que a Argentina, não existe um país com as potencialidades de crescimento da Argentina. Espero que nos acompanhem os espanhóis e todos os empresários do mundo neste novo desenvolvimento.



Repsol.



P.- Espera realmente que as empresas espanholas voltem à Argentina? Estão voltando, percebem que estão voltando? Que razões há para que voltem? O que o senhor lhes diria?

R.- Porque somos irmãos, temos uma longa história, eu sou neto de descendentes de espanhóis. Metade da Argentina o é, e os espanhóis nos conhecem mais que ninguém e sabem quem é quem e sabem interpretar a realidade da Argentina. São os primeiros que se deram conta de que a Argentina voltou ao mundo. A Argentina é hoje a grande oportunidade, e sobretudo aqueles que sobreviveram à ultima década, que foi muito dura para muitas empresas espanholas, hoje estão mais fortes do que nunca para apostar e crescer conosco.

P.- Lhe parece, presidente, que a decisão que em sua época foi tomada sobre a Repsol foi acertada?

R.- Não, foi péssima. Foi um abuso, uma violação da Constituição nacional, da lei... Isso não foi uma desapropriação, foi um confisco que, com o tempo, se transformou em uma desapropriação. E como tantas coisas equivocadas que o governo anterior fez, o melhor negócio foi feito pela Repsol. Porque vendeu com o maior preço do petróleo quando o petróleo valia um quinto. Mas, bem, a realidade é que nada justifica violar a Constituição de nosso país. Temos uma Constituição nacional maravilhosa, e é preciso respeitá-la, e sobre ela será construída a Argentina grande com a qual sonhamos.

P.- Qual é sua opinião sobre a situação de ingovernabilidade da Espanha?

R.- Falei sobre isso com o presidente (Mariano) Rajoy. A verdade é que é muito impressionante o que está acontecendo. Não se entende. A verdade é que é um caso inédito, e sobretudo em uma Espanha que se recupera economicamente. Diante de tudo o que está acontecendo na Europa, hoje a Espanha é um dos países que melhor estão. Então não se entende por que a política espanhola não apoia, como historicamente, quem consegue a maior bancada para que forme governo. Isso é um pouco difícil de entender. É querer interromper um processo de recuperação que para a Espanha é muito importante. Ainda há muita gente desempregada. Interromper com este barulho que está sendo feito pela instabilidade política não é bom.



Populismo.



P.- O senhor, o senhor presidente, sempre diz que quer que a Argentina seja um país previsível, que é algo que Rajoy também diz sobre sua política e a Espanha. Gostaria que Rajoy continuasse governando? Qual é sua opinião sobre alguns movimentos populistas que surgiram na Espanha, como por exemplo o Podemos?

R.- Sou crítico desses movimentos populistas porque já os vimos na Argentina. Os que governaram. E o que fazem é gerar expectativas que depois não correspondem à realidade. Isso gera frustração, desgosto, violência, destrói o futuro. O populismo destrói o futuro porque gasta as economias, as infraestruturas, para criar um ambiente de prosperidade no curto prazo, e acredito que não é bom para ninguém. O populismo foi realmente uma desgraça para a Argentina e o é para qualquer país que caia em suas mãos. Porque claramente o futuro se constrói com base no esforço pessoal de cada um. Esse que te gratifica, te entusiasma, te eleva a autoestima... Com Mariano Rajoy tive uma longa relação, o respeito muito e acho que teve uma atitude de muita coragem em um momento de crise quando herdou o governo de (José Luis Rodríguez) Zapatero e que conseguiu conduzir a Espanha lentamente na direção correta, portanto essa é minha opinião.

P.- Presidente, quando será sua visita à Espanha e a do rei da Espanha à Argentina?

R.- Acredito que primeiro vou eu, em fevereiro, à Feira Arco. Estou ansioso para ir. Amo ir à Espanha, me sinto muito à vontade. Fui como dirigente de futebol para vender jogadores ou comprar jogadores dos clubes espanhóis, fui como prefeito (de Buenos Aires) e agora espero voltar como presidente.



P.- Me permite umas perguntas muito breves? Podem ser respostas curtas, porque são muito fáceis.



1. Hillary Clinton ou Donald Trump?

Digamos que trabalhei mais com Hillary nos últimos anos, e em seguida com Obama, com quem nos damos muito bem.



2. Trump lhe provoca algum medo?

Isso seria avançar em um campo complexo, mas eu acredito que é preciso criar redes, e não erguer muros.



3. José María Aznar ou Felipe González?

São duas personalidades distintas. Por eles tenho afeto e respeito.



4. Rajoy ou Zapatero?

Rajoy.





Messi.



P.- Me permita, por sua trajetória futebolística ou ligada ao futebol, duas perguntas, porque na Espanha sentimos grande paixão pelo futebol e os jogadores argentinos. O que representa Messi para a Argentina? E seu retorno à seleção é um alívio para o cidadão argentino.

R.- É um alívio. Estamos orgulhosos de ter o melhor jogador do mundo. Isso é algo único para um país apaixonado por futebol como o nosso. Eu tenho muita admiração por Messi, por sua regularidade... e sou muito grato porque, graças a ele e ao elenco que temos, fizemos três campanhas incríveis, não perdemos uma partida no tempo regulamentar. Às vezes cabe a você perder nos pênaltis, não é? São coisas que acontecem.

P.- E como viu Diego Simeone no encontro que teve com ele há poucos meses em Buenos Aires?

R.- Muito bem. Muito bem.

P.- Que virtudes acredita que 'El Cholo' Simeone tem como treinador?

R.- Tem uma grande liderança. Transmite uma convicção, uma força. O que ele fez no Atlético (de Madrid), apoiado por um grande dirigente como Miguel Ángel Gil e (Enrique) Cerezo, o presidente, foi um trabalho fantástico. Muito orgulho que também esse treinador seja argentino.

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