Macri pede tempo

José Antonio Vera.

Buenos Aires, 15 set (EFE).- Se alguém pensou alguma vez que Macri conseguiria sem esforço, se equivocou. O presidente da Argentina se comprometeu, logo após chegar ao poder, a reduzir a inflação e o desemprego, além de erradicar a pobreza.

Quase um ano depois, a realidade é que a inflação segue alta, o desemprego aumentou como consequência de demissões em massa nas administrações públicas, e a pobreza, em vez de cair, por enquanto cresceu.

Mauricio Macri nos recebeu com pontualidade britânica no imponente CCK, em Buenos Aires, um edifício mastodôntico, mausoléu do kirchnerismo, antiga sede dos Correios, hoje transformado no maior centro cultural da América Latina, onde atualmente acomtece o Fórum de Investimentos organizado pelo governo da Argentina para atrair capitais para o país.

Exatos 20 minutos de entrevista em um salão modernista de seis metros de altura, cortinas alongadas com o mesmo e imponente comprimento, um simples relógio de parede, um par de poltronas chester e a bandeira azul e branca.

Todo medido e austero, milimetricamente regulado por dois assessores de comunicação e três encarregados da decoração. Nada a ver com os séquitos intermináveis de outras latitudes.

Na hora da entrevista, Buenos Aires registrava um frio impróprio para a época. Quase o mesmo com o qual Macri começou seu discurso. Gélido, mas direto, com frases contundentes para ressaltar que seu mandato não será um parêntese na Argentina, que vai recuperar o país, que vai voltar a colocá-lo no mundo, ou para desacreditar tanto seus antecessores como Nicolás Maduro e os populismos.

Macri está empenhado em acabar com a ideia de que a Argentina não tem conserto, embora saiba que precisa de tempo. Os sindicatos declararam guerra a sua revolução conservadora, e estão usando a fundo a banda de músicos de rua dos batedores de panelas, os 'ruidaços' e os 'buzinaços'. Há poucas semanas apedrejaram seu carro, o vaiaram e gritaram "Macri lixo, és a ditadura".

Mas o presidente, que já sofreu uma arritmia e tem impressa no rosto esta tensão, resiste aos embates, e sabe que terá contra as lideranças sindicais, o ativismo social, o conjunto de organizações de funcionários e, certamente, o peronismo. Ou seja, o kirchnerismo.

Ele está ciente de que jamais um presidente não peronista chegou ao final de seu mandato. O desafio de acabar com este retrospecto não o assusta, porque é um homem acostumado a ganhar, mas também a sofrer: em 1991, sofreu um sequestro de 12 dias que o marcou para sempre.

"Panama Papers" à margem, o presidente Macri é um triunfador nato com uma fortuna declarada de 110 milhões de pesos, 18 deles no exterior, quase tudo conseguido com empresas próprias, e também foi o presidente mais bem-sucedido da história do Boca Juniors, com 17 títulos no currículo. Foi ainda o prefeito mais bem avaliado de Buenos Aires.

Macri acredita que a receita para seu país deve estar na estabilidade, em ser uma nação previsível, capaz de atrair o capital que fugiu com Cristina Kirchner e que ainda não voltou. Capaz de conseguir que o investimento do exterior retorne.

Não é normal que a Argentina, um país descomunal, rico em recursos e capital humano, tenha ficado no fim nos índices de crescimento na América do Sul.

Mas Macri precisa de tempo e o pede. É difícil baixar a inflação, diminuir o desemprego ou eliminar a pobreza em apenas oito meses. Se cumprir seu objetivo e chegar ao fim do mandato, também conseguirá que a Argentina, após anos sem direção, deixe de ser um país imprevisível para se consolidar como a maior e mais próspera nação do Cone Sul.

Não está claro que possa consegui-lo.

Precisa de tempo.

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(foto)

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