Pensilvânia mostra lacuna ideológica e demográfica dos EUA

Jairo Mejía.

Aston (EUA), 15 set (EFE).- Em uma viagem da cidade da Filadélfia até o interior rural do estado da Pensilvânia, é possível ver se cruzarem as linhas da frente da batalha eleitoral que tomou conta dos Estados Unidos e que mostram uma divisão ideológica que pode ser traçada ao longo das lacunas demográficas e econômicas em todo o país.

A Filadélfia, onde na última terça-feira o presidente Barack Obama fez campanha para Hillary Clinton, vota consistentemente em candidatos do Partido Democrata, como fazem todas as grandes cidades da Pensilvânia, o que foi suficiente para que nas últimas seis eleições gerais a legenda levasse a melhor contra o Partido Republicano.

"Não tenho dúvida de que a Pensilvânia será democrata novamente e dará seus votos a Hillary", declarou à Agência Efe Mary Wade, que usava uma camiseta tradicional africana com imagens de Obama e que reconhece, emocionada, que "sentirá saudades" do presidente.

Obama atraiu na terça-feira Wade e várias outras centenas de pessoas às escadarias do Museu de Arte da cidade, a grande maioria delas afro-americanas.

O presidente, interrompido por aplausos diversas vezes, ressaltou que, com Hillary, será dada continuidade a políticas que permitiram, segundo um relatório divulgado nesta terça-feira pelo Escritório do Censo, que 3,5 milhões de americanos tenham saído da pobreza e que as receitas tenham aumentado em um ritmo recorde.

A Filadélfia é uma cidade racialmente diversa, mas que pesquisadores da Universidade de Princeton classificaram em um estudo como "hipersegregada".

Mais de um quarto da população vive abaixo do nível de pobreza, um dos índices mais altos de uma cidade americana, mas são os moradores das áreas mais prósperas, geralmente no noroeste, os que têm uma maior participação no processo eleitoral, normalmente por opções moderadas como as de Hillary.

Para votar em Trump na Pensilvânia, não só é preciso ser pobre ou classe média baixa, mas, a julgar por seus comícios e o grosso de simpatizantes que lhe seguem, é preciso ser de raça branca.

Essas variáveis se juntam em Aston, uma cidade de 16.000 habitantes (90% brancos) cerca de 40 minutos ao oeste da Filadélfia, onde o lustro industrial de décadas atrás abriu passagem ao óxido e aos negócios sem alma das cadeias americanas de fast-food e comércio no varejo.

Trump organizou ali na mesma terça-feira um evento reservado para 200 políticos do baixo escalão, pequenos empresários e líderes locais em um ginásio comunitário, mas várias centenas de pessoas tentaram ver seu novo ídolo político e se aglomeraram do lado de fora com grandes bandeiras americanas.

"Fora das cidades são todos republicanos, por aqui você não verá cartazes de Hillary Clinton por nenhum lado", disse Alan Strickler, morador de Aston, que foi um dos sortudos que pôde ver Trump de perto.

"A Filadélfia é um caso perdido. Os democratas passaram as últimas décadas cortejando o voto dos pobres nas cidades, mas não fizeram nada por nós aqui", acrescentou seu amigo Rod.

"Aqui o que falta são trabalhos", tachou categórico Strickler, que exibia orgulhoso seu boné e sua camisa de Trump enquanto assegurava que os comentários nos quais Hillary classifica parte dos simpatizantes do magnata de "deploráveis" mostram seu desdém pelos trabalhadores do EUA suburbano e rural.

"Antes isto estava cheio de fábricas ao longo do rio Delaware (...) As pessoas apoiam Trump porque querem trabalhos, querem ver suas comunidades como eram nos anos 60 e 70", destacou Louis Perti, dono de uma loja de encanamento.

O condado de Delaware, onde se encontra Aston, foi um dos dois únicos em todo o estado da Pensilvânia em que o peso dos votos democratas aumentou em 2012, quando se enfrentaram o presidente Obama e o candidato republicano, Mitt Romney.

Para Trump, conquistar este condado é parte da estratégia para ganhar na Pensilvânia - que se inclina nas pesquisas por Hillary - e por extensão em todo o cinturão industrial americano deprimido pela reconversão tecnológica e a globalização.

Para os moradores da esquecida Aston, alguns dos quais empunhando cartazes com a mensagem "Deploráveis por Trump", o showman convertido em político é tão salvador e tão ídolo de massas como era Obama de manhã no centro da Filadélfia.

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