Sepultamento com honras de herói para ex-ditador divide sociedade filipina

Helen Cook.

Manila, 16 set (EFE).- O possível sepultamento no Cemitério dos Heróis do ex-ditador das Filipinas, Ferdinand Marcos, que governou o país com punho de ferro durante mais de duas décadas, volta a dividir a sociedade local, que não consegue deixar pra trás um dos episódios mais obscuros de sua história.

"Marcos merece ser enterrado como um herói, e muito mais. Há gente que se queixa agora do governo de Marcos, mas a realidade é que nas Filipinas nunca voltamos a viver tão bem", disse à Agência Efe Jun Enríquez, dono de um pequeno negócio em Manila e fã incondicional do ex-ditador que liderou o país de 1965 a 1986.

A realidade do regime de Marcos, acusado de ser o responsável pela morte, tortura ou detenção ilegal de mais de 100 mil pessoas e de ter roubado US$ 10 bilhões, foi bem diferente para Susan Quimpo, que desde os 12 anos viveu a brutal repressão do líder com a detenção de cinco de seus irmãos.

"Deles, um morreu, e outro desapareceu e nunca mais voltamos a ver, por isso o consideramos morto", declarou Quimpo, que ainda menina dedicava seus finais de semana a buscar seus irmãos nos centros de detenção militares.

O debate entre os filipinos defensores e críticos de Marcos foi retomado pela ordem do novo presidente, Rodrigo Duterte, de enterrar o antigo autocrata no Cemitério dos Heróis, um cemitério reservado a soldados e figuras políticas destacadas.

Enquanto a Suprema Corte das Filipinas decide se despreza ou não os recursos apresentados que tentam impedir o privilegiado sepultamento de Marcos, as vítimas da ditadura realizaram vários protestos nos quais se veem forçados a lembrar seu sofrimento.

"Meu irmão era estudante, tinha 19 anos. Foi detido e amarraram um cabo com corrente elétrica em seu pênis e lhe eletrocutaram enquanto tinha os pés em uma poça de água. Eles injetaram água com uma seringa em seus testículos", relatou Quimpo.

Segundo Duterte, o enterro no Cemitério dos Heróis de Marcos, que sua família veio reivindicando há décadas, tem o objetivo de encerrar o assunto e permitir que os filipinos "curem suas feridas".

"Você acha que estamos nos curando? Eu não acho. Na verdade, estão reabrindo as feridas e jogando sal nelas", respondeu Quimpo às declarações do atual presidente filipino, que está há pouco mais de dois meses no poder.

"Como pode haver cura se os Marcos até agora não admitiram que (...) saquearam nossa economia, que violentaram e prenderam? Se querem unidade, que admitam a verdade", acrescentou.

No entanto, os defensores do ex-ditador querem deixar à margem do debate as consequências dos crimes cometidos por Marcos, e asseguram que tem o direito de ser sepultado no Cemitério dos Heróis pelo mero fato de ter sido presidente das Filipinas.

"As emoções e sentimentos das vítimas não têm relevância", chegou a dizer recentemente em uma das audiências do Supremo a advogada da família dos Marcos, Hyacinth Rafael-Antonio.

Além disso, seus defensores argumentam que Marcos foi um militar destacado durante as batalhas da Segunda Guerra Mundial que foram travadas nas Filipinas, embora a Comissão Nacional Histórica do país (NHCP) tenha colocado sérias dúvidas sobre o papel que o ex-ditador realmente exerceu no conflito.

Segundo um relatório da NHCP, o histórico militar de Marcos - que indica que foi condecorado com a Cruz por Serviço Distinto, a Estrela de Prata e a Medalha do Coração Púrpura - está "carregado de mitos, fatos inconsistentes e mentiras".

Por enquanto, a Corte Suprema paralisou o processo de sepultamento de Marcos até o próximo dia 18 de outubro enquanto delibera se o antigo líder absolutista merece ser enterrado no Cemitério dos Heróis.

O corpo de Ferdinand Marcos, que morreu no exílio no Havaí em 1989 após ser deposto três anos antes, foi transferido às Filipinas em 1993, e desde então permaneceu embalsamado em um mausoléu em sua província natal de Ilocos Norte, na região setentrional do país.

Além de ser responsável pela morte, tortura e detenção ilegal de mais de 100.000 filipinos, Marcos se apropriou de forma ilícita de entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões, segundo a ONG Transparência Internacional, o que lhe transforma no segundo líder mais corrupto da história, atrás apenas do indonésio Suharto.

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