Aproximação de Argentina e Reino Unido reacende polêmica por Ilhas Malvinas

Rodrigo García Melero.

Buenos Aires, 19 set (EFE).- O "novo clima" que Argentina e Reino Unido buscam em sua relação após a recente visita a Buenos Aires do ministro britânico para a Europa e América, Alan Duncan, reaqueceu a controvérsia pelo diálogo entre os países sobre as Ilhas Malvinas.

"A exigência de soberania argentina sobre as Ilhas Malvinas é uma reivindicação permanente e não negociável de todos os argentinos", disse hoje o presidente do país, Mauricio Macri, em entrevista em Nova York, onde está para participar da Assembleia-Geral da ONU.

As declarações de Macri vêm precedidas de muitas críticas, feitas pela oposição e até por setores do governo, que garante que Macri está descumprindo uma lei de ratificar uma soberania que a Argentina reivindica desde 1833 e que foi motivo da guerra de 1982.

A polêmica remonta a última terça-feira, depois da divulgação de um comunicado conjunto entre Argentina e Reino Unido resultado da visita de Duncan a Buenos Aires. O ministro britânico participou de um fórum de investimentos e teve encontros com autoridades do país.

No texto, os dois governos concordavam em dar ênfase à agenda positiva, estreitar ainda mais os vínculos bilaterais e estabelecer um "diálogo para melhorar a cooperação em todos os assuntos de interesse recíproco no Atlântico Sul", onde ficam as Malvinas.

Apesar de haver referência específica à intenção de "remover obstáculos" que "limitam" o crescimento e o desenvolvimento sustentável das Malvinas, assim como o estabelecimento de duas conexões aéreas mensais ao território continental da Argentina, não constava no comunicado o assunto da soberania.

Exatamente esse fato que desencadeou uma série de críticas. Um dos grupos que mais se revoltou com o texto conjunto publicado pelos dois países foi o de veteranos de guerra da Argentina.

"Há uma solução para tudo isso, que é cumprir o que diz a resolução 2065 das Nações Unidas, que pede às partes para dialogar sobre o tema da soberania", afirmou nesta segunda-feira à Agência Efe Mario Volpe, ex-combatente do conflito argentino-britânico.

A oposição, liderada pelo bloco de deputados do Frente para a Vitória (FpV), ligado à ex-presidente Cristina Kirchner, apresentou hoje um projeto de resolução para rejeitar "em todos os termos" a declaração conjunta. Além disso, pediu que o governo remeta ao Congresso, em caráter urgente, todas as ações tomadas envolvendo o tema das Malvinas.

"O que o governo fez é um comunicado. Nem sequer é um acordo, não é um tratado", ressaltou o presidente interino do Senado, Federico Pinedo, que rejeitou que a declaração envolva a soberania.

A desaprovação dentro do governo veio principalmente por parte da Coalizão Cívica, partido que integra o "Mudemos", grupo político de Macri. O texto foi chamado pelo partido de "lesivo para a soberania da Argentina".

No meio da polêmica, o Executivo divulgou no sábado um outro comunicado, no qual disse confiar que o novo clima que está sendo criado com o Reino Unido permitirá conversas para resolver a disputa sobre a soberania das ilhas. "A declaração do último dia 13 refletiu a vontade política das partes de reiniciar um diálogo sobre todos os temas do Atlântico Sul, sem exclusões", dizia a nota.

O especialista do Centro Argentino de Estudos Internacionais, Bruno Tondini, explicou à Efe que está em andamento uma "mudança da estratégia política" do atual governo em relação ao kirchnerismo (2003-2015), mas que o novo rumo não invalida a "constante reivindicação" que a Argentina faz sobre a soberania.

Tondini, porém, ressaltou que quem estabelece as direções da política externa do país é o Congresso, não o presidente. Por isso, qualquer acordo com o Reino Unido deveria ser discutido desde seu início com o parlamento da Argentina.

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