Na Colômbia, há uma bola de futebol entre a foice e o martelo

Gonzalo Domínguez Loeda.

El Diamante (Colômbia), 20 set (EFE).- "Vamos, que Falcao está jogando" - não há dúvida de que o futebol é a quintessência da globalização e um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) não é uma exceção: os guerrilheiros falam de futebol, usam uniformes de seus times e seguem os astros colombianos que triunfam na Europa.

Nos últimos dias, os guerrilheiros se reúnem nos Llanos del Yarí, no interior da Amazônia colombiana, onde cerca de 800 deles compareceram para participar da 10ª Conferência Guerrilheira, na qual ratificarão o acordo de paz alcançado com o governo e deixarão as armas.

Acima de suas eternas botas de borracha, que são fundamentais nesta região de floresta fechada, e de suas calças camufladas, próprias da guerrilha, muitos usam as camisas de clubes europeus, como Atlético de Madrid, Barcelona, Real Madrid e Manchester City.

Entre eles há um grande número de fãs do Real Madrid, graças ao sucesso de James Rodrígues, que fez a devoção pela equipe espanhola multiplicar entre os guerrilheiros, assim como entre o restante dos colombianos.

O futebol também é o responsável por quebrar a rotina dos que esperam que seus comandantes saiam da conferência e aproveitam para torcer pelo Monaco de Falcao García ou para ver o resumo da rodada europeia no único bar habilitado na região.

"Ver essas estrelas é uma forma de esquecer a realidade", comentou Jairo (nome fictício), um dos guerrilheiros que acompanha a conferência com a camisa de James.

Na guerrilha, Jairo teve que abandonar o futsal que praticava com devoção e agora, a ponto de voltar à vida civil, sonha em jogar novamente, de forma profissional, para assim poder visitar as cidades que hoje ele vê pela televisão.

O futebol é também a forma mais plausível de começar uma conversa com aqueles que estão há anos nessa região florestal, acostumados com a guerra que resumem com naturalidade: "Eu estou aqui há pouco, apenas oito anos", disse Jairo, diante da surpresa de seus interlocutores, para quem uma década de guerra parece uma eternidade.

Para ele, o futebol é uma forma de percorrer o mundo, já que conhece Madri por suas equipes e brinca ao imaginar um clássico entre os torcedores guerrilheiros do Atlético e do Real, embora reconheça que também há muitos torcedores do Barcelona.

No entanto, a forma de ocupar o tempo na guerrilha não é jogando o esporte bretão, mas praticando o vôlei. Os comandantes temem que, com o futebol, os guerrilheiros possam se lesionar e não sejam capazes de continuar as marchas obrigatórias por uma geografia complexa.

Os guerrilheiros também comentam entre eles sobre o Campeonato Colombiano e não se privam de usar as cores do Deportivo Cali, do Nacional de Medellín ou de uma equipe cujo nome não é muito adequado para uma guerrilha de fundamento marxista-leninista como o Millonarios (Milionários, em português).

"Quando o (Independiente) Santa Fé jogava, os gritos da minha companheira eram ouvidos por toda a floresta", relembrou Sergio (nome fictício), enquanto tomava uma cerveja ao lado do salão onde seus companheiros acompanham as novidades da rodada do campeonato de futebol.

O paradoxo fica evidente quando a seu lado passam seus companheiros de armas, todos eles sem fuzis, usando camisetas alusivas às Farc, algumas com foices e martelos, imagens de Stalin, Lênin, Marx e Che Guevara, e slogans revolucionários.

Para eles é algo natural, não pensam na contradição ideológica que representa, é apenas um hobby com o qual passam o tempo e que não faz parte das lições sobre doutrina política revolucionária, não veem se são multinacionais ou o "inimigo capitalista" infiltrado.

E você, torce para quem? "Eu uso as cores de nossas florestas, o verde e branco do Nacional de Medellín", disse Sergio, que também sente simpatia pelo outro verde da Colômbia, o Deportivo Cali.

As conquistas do clube de seu coração cresceram notavelmente neste ano, depois que a equipe de Medellín levantou a Taça Libertadores pela segunda vez em sua história, uma vitória da qual Sergio não tinha notícia: "Que brindemos por ela", disse o guerrilheiro, cheio de felicidade.

Com a imagem de Che sempre presente, os guerrilheiros acompanham essas partidas e muitos não tiveram chance de ver a histórica participação de sua seleção no Copa do Mundo do Brasil, em 2014.

Mas os resultados eles conhecem, e sabem que "foi gol de Yepes", uma frase que se transformou quase em um emblema nacional e remete ao zagueiro colombiano que teve um gol anulado durante a disputa das quartas de final contra os brasileiros.

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