Farc trocam tiros por música para festejar a paz no "Woodstock guerrilheiro"

Gonzalo Domínguez Loeda.

El Diamante (Colômbia), 22 set (EFE).- Os integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) confirmam a paixão dos colombianos pela dança com um improvisado festival de música realizado todas as noites nos intervalos de sua Décima Conferência Nacional, que começa a ganhar as formas de um "Woodstock guerrilheiro".

Chegar até os remotos Llanos del Yarí, no sul do país, onde está acontecendo a conferência, não foi um problema para os grupos musicais que não queriam perder a oportunidade de tocar perante centenas de guerrilheiros que se deslocaram até a região.

Cerca de 800 participam da logística, enquanto outros 200 são delegados na conferência que deve ratificar o acordo de paz alcançado com o governo e aprovar o abandono de armas por parte da guerrilha.

A proximidade da paz gerou um ambiente de felicidade que fez com que até os comandantes desfrutassem dessa exibição de danças populares em que se transformaram os Llanos del Yarí.

O líder das Farc, Rodrigo Londoño Echeverri, que usa o codinome "Timochenko", se uniu à festa em uma das noites. Animado por seus subordinados, subiu ao palco enquanto se apresentavam os Rebeldes del Sur, uma banda formada integralmente por guerrilheiros.

"Timochenko" aproveitou a música, mas pôs em dúvida essa máxima universal de que todos os colombianos dançam bem e quase não se mexeu durante a apresentação.

"Estamos felizes e contentes de receber a paz cantando e dançando, é a melhor forma de fazê-lo, todos estamos alegres, se aproxima um novo futuro para a Colômbia, a paz com alegria", disse à Agência Efe Paola Sainz, integrante do bloco "Comandante Jorge Briceño".

O fim do conflito armado de mais de meio século está exemplificado para ela na música, porque representa "um verde esperança que cobre todos os colombianos".

A guerrilheira, que se tudo correr como se espera, se desmobilizará depois que o acordo for assinado no próximo dia 26 de setembro e ratificado em plebiscito no dia 2 de outubro, considera que a paz chegará com "emprego, igualdade e alegria" para que "as crianças da Colômbia não continuem morrendo de fome".

"Somos um país alegre, a alegria sempre nos caracterizou", declarou Paola enquanto dançava ao som de Alerta Kamarada, uma banda de reggae de Bogotá.

As letras das canções das bandas costumam estar cheias de compromisso político e social, mas às vezes geram algum atrito com a linha das Farc, como, por exemplo, no tema do narcotráfico.

A Alerta Kamarada fez uma defesa em favor da legalização da droga que não se enquadra muito com as posições públicas do comando guerrilheiro, que nega seu envolvimento no negócio da cocaína.

Outro dos delegados na conferência, Luis Torres, declarou que as apresentações musicais são muitos boas porque fazem com que "o povo esteja contente e com muita vontade que tudo saia bem".

"Estas festas noturnas são sensacionais, é ótimo que toda a 'guerrilheirada' possa gozar de um bom ambiente de paz após tanto conflito e tanta violência", destacou Torres.

Não só para os fãs, mas também para os aspirantes a viver da música após deixar a guerrilha, como os Rebeldes del Sur, esta foi a chance de colocar-se a toda prova em um grande palco e com uma audiência numerosa.

Jonás Rodríguez, um dos fundadores da banda, explicou que a dinâmica do conflito fez com que os integrantes fossem mudando porque alguns dos músicos morreram em combates com o exército.

A banda, integrada por guerrilheiros do Bloco Sul das Farc, não ensaia, mas "treina as canções" quando tem um espaço entre seus trabalhos de combate, um vocabulário que parece estar com os dias contados.

E quando a música acaba, como em qualquer festival do mundo, o "Woodstock guerrilheiro" se transfere para as barracas onde se dorme (ou não) e se espera o dia seguinte.

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