"Farc terão que se reconciliar com os colombianos", diz presidente do Senado

Jaime Ortega Carrascal.

Cartagena (Colômbia), 26 set (EFE).- O presidente do Senado da Colômbia, Mauricio Lizcano, considera que as Farc terão obrigatoriamente que se reconciliar com os cidadãos do país, da mesma forma que vítimas como ele perdoaram a guerrilha para que a paz seja alcançada.

"Os colombianos esperamos primeiro um grande arrependimento por parte das Farc e fazer com que pedir perdão não só aconteça em casos pontuais, mas em grande escala, porque todos os colombianos fomos vítimas, e eu também sinto que eles vão ter que entrar em uma reconciliação forçada com a sociedade civil", declarou Lizcano em entrevista à Agência Efe em Cartagena.

Hoje senador, ele sabe bem o que sente uma vítima das Farc, porque seu pai, Óscar Tulio Lizcano, foi sequestrado por essa guerrilha em agosto de 2000, quando era membro da Câmara dos Representantes, e permaneceu oito anos em cativeiro, até conseguir escapar, em outubro de 2008.

"Nós decidimos como família que já demos o perdão às Farc (...), o perdão é libertador, é uma virtude que cria sociedades novas, e nós estamos dispostos a nos reconciliar", afirmou.

O senador verá hoje nos atos de assinatura da paz entre as Farc e o governo os chefes da guerrilha e, possivelmente, algum dos envolvidos no sequestro de seu pai.

"Não posso negar que sinto um frio na barriga, porque é um dia singular. Nunca fiquei frente a frente com aqueles que sequestraram ou enviaram homens para sequestrar meu pai. Será um momento de muitos sentimentos achados", admitiu.

Lizcano acrescentou que de agora em diante ele e seus familiares certamente se encontrarão mais vezes com os membros da guerrilha transformada agora em movimento político.

"Temos que nos cumprimentar ou falar algumas palavras", disse o presidente do Senado, acrescentando em seguida que no caso de seu pai provavelmente "haverá um ato especial com as Farc com um tema de perdão durante esta semana, possivelmente em Havana".

O caso do pai do político não é o único de sequestro em sua família, pois seu irmão Juan Carlos Lizcano também ficou seis meses em poder de uma facção do Exército Popular de Libertação (EPL) quando Óscar Tulio Lizcano estava há quatro anos como refém das Farc.

Com esses argumentos, o presidente do Senado quer que seus compatriotas que são céticos com o acordo de paz que será assinado hoje vejam que esta é a melhor alternativa para encerrar 52 anos de um conflito que cobriu o país de sangue, dor e morte.

"A primeira coisa que lhes digo é que é preciso acreditar, é melhor indubitavelmente um país em paz do que um país com conflito, e precisamente os que vivemos a guerra, que sofremos. No meu caso, meu pai sequestrado e meu irmão, que também foi refém, sabemos o valor da paz", ressaltou.

Aos 40 anos, Lizcano, pai de três filhos para os quais sonha um país em paz e sem a tragédia que afetou sua família, se pergunta: "se nós que vivemos isto e sofremos na própria pele estamos dispostos a perdoar e a nos reconciliar e a fazer a paz, por que as pessoas que não viveram casos assim não podem?"

No que corresponde às Farc, cujas manifestações sobre as vítimas são poucas, assim como as mostras de arrependimento e desejo de perdão, Lizcano afirma que o país desejaria mais deles.

"Sem dúvida todos os colombianos estamos esperando que a cada dia eles se sintonizem mais com o que se espera deles, e não eles o que esperam dos colombianos", declarou.

O senador espera que, por enquanto, as Farc comecem a deixar as armas, "cumpram os acordos, não voltem a fazer violência e entreguem as rotas do narcotráfico" e depois participem da política.

"O fato de que eles possam participar de política lhes gera uma espécie de coesão em relação ao futuro, porque se somente entregassem as armas e fossem mandados para casa, a probabilidade de que eles voltassem a delinquir ou que se desorganizem seria muito forte. A política lhes dá de alguma maneira uma causa e uma possibilidade de que se mantenham unidos e que tenham que cumprir os compromissos", advertiu.

Isso não quer dizer que Lizcano, que confia no triunfo do "sim" no referendo sobre o acordo de paz do dia 2 de outubro, pense em votar alguma vez nas Farc como partido.

"Nós não vamos votar nas Farc, não faremos coalizões com as Farc, não estamos votando o 'sim' ao referendo pelas Farc, mas pela paz da Colômbia", concluiu.

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