Após fim do "sonho brasileiro", haitianos tentam admissão nos EUA pelo México

Isabel Reviejo

Na Cidade do México

  • Alejandro Zepeda/ Efe

    Haitianos na cidade mexicana de Tijuana aguardam para cruzar a fronteira com os EUA

    Haitianos na cidade mexicana de Tijuana aguardam para cruzar a fronteira com os EUA

Um "funil". Assim pode ser classificada nestes dias a cidade de Tijuana, no México, onde estão centenas de imigrantes haitianos que pretendem atravessar a fronteira com os Estados Unidos legalmente para buscar uma nova vida, após verem encerrado o chamado "sonho brasileiro".

Depois do terremoto que assolou o Haiti, em 2010, milhares de cidadãos do país caribenho encontraram no Brasil um refúgio, quando o governo ofereceu vistos por razões humanitárias.

A Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 deram oportunidades para que muitos deles pudessem trabalhar na construção civil. Outros, com um domínio básico do português, trabalharam em restaurantes ou com limpeza. Alguns tiveram filhos durante sua estadia no Brasil.

Mas quando os megaeventos esportivos terminaram e o país passou a sofrer com a crise econômica, os haitianos voltaram a se deparar com o desemprego e a fome. O foco deles, então, se voltou para os Estados Unidos, e agora, a poucos quilômetros de seu novo sonho, a viagem de muitos ficou estagnada em Tijuana, no Estado da Baja California.

Joseph ficou três anos no Brasil e, após uma viagem pela América Latina com amigos, chegou ao México, onde está há um mês. Ele agora espera ansiosamente pelo próximo dia 30, quando, se tudo correr conforme o esperado, poderá atravessar a fronteira legalmente.

"Vim buscando a vida, para ver se vou poder ajudar meu pai, minha mãe", disse ele.

Alejandro Zepeda/ Efe
Haitianos recebem comida oferecida por mexicanos em Tijuana

O registro no albergue onde está hospedado diz que Joseph é natural do Congo, embora isso seja incorreto. Afirmar que nasceu no país africano é uma estratégia usada por uma grande porcentagem dos haitianos no México, porque pensam que assim terão menos dificuldades com as autoridades migratórias.

Este grande movimento migratório no México começou a ser percebido em maio, disse a irmã Salomé Lima, do centro de amparo a imigrantes Madre Assunta.

A situação tornou-se complicada em parte pelos trâmites com os EUA, já que antes 100 imigrantes entravam no país por Tijuana diariamente, e agora as autoridades americanas só permitem a passagem de 50 e de outros 40 por Mexicali, capital de Baja California e onde não há tanto acúmulo de solicitantes de asilo, afirmou a religiosa.

Em agosto, as autoridades migratórias mexicanas reuniram os haitianos que estão em Tijuana e, na permissão que lhes concederam previamente em sua entrada, agendaram a data na qual vão se apresentar no posto alfandegário para entrar nos EUA.

Alguns tiveram que esperar durante semanas, e as autoridades não estão agendando entradas a partir dessa reunião de agosto. "Por isso todos estão se acumulando, não se vê o fluxo avançar", disse a freira.

Segundo o Instituto Nacional de Migração (INM), em Baja California há hoje 1.230 estrangeiros que solicitaram refúgio e asilo aos EUA nos postos de fronteira.

Alejandro Zepeda/ Efe
Haitianos comem na calçada em Tijuana, México. Grupo aguarda para atravessar a fronteira com os EUA

De janeiro até 21 de setembro, o INM registrou a entrada irregular de 7.800 haitianos, 3.753 asiáticos e 1.701 africanos. A maioria chegou por terra a Tijuana, atravessando Peru, Equador, Colômbia, América Central e todo o México. O caminho é tão longo quanto caro: os imigrantes gastam de US$ 3 mil (cerca de R$ 9,7 mil) a US$ 7 mil (R$ 22,7 mil).

"Há quem conte que teve uma trajetória difícil, deixaram a esposa no caminho, há quem diga que deixou o irmão, tragédias horríveis", disse Margarita Andonaegui, cofundadora do Desayunador Padre Chava.

Como os demais centros de amparo, esta ONG se viu lotada pela chegada de haitianos, mas se mantém com a solidariedade dos cidadãos de Tijuana, que doam comida, roupas, remédios e produtos de limpeza.

Atualmente, no Padre Chava convivem 226 imigrantes, a grande maioria haitiana, mas as instalações têm capacidade para 88 pessoas.

Elas contam com sacos de dormir e colchonetes, porque as camas são insuficientes, e há imigrantes que têm que dormir no chão.

As mulheres "estão em dois trailers com as crianças e estão no chão, e o refeitório se transformou em dormitório", disse Andonaegui.

"Todos os albergues estão saturados", afirmou, por sua vez, a irmã Salomé Lima, cujo centro tem capacidade para 44 pessoas, mas chegou a hospedar cerca de 100.

Neste ano, o governo americano permitiu a passagem de cinco mil haitianos, segundo o Departamento de Segurança Nacional.

No entanto, o aumento significativo de imigrantes nos últimos meses fez com que as autoridades dos EUA anunciassem, na quinta-feira passada, que retomarão as deportações de haitianos imigrantes ilegais, porque consideram que "a situação no Haiti melhorou o suficiente".

Isto põe fim à interrupção das deportações que os Estados Unidos decretaram depois do terremoto de 2010 e semeou incerteza nos centros de amparo em Tijuana, que se preocupam com os efeitos que a decisão pode provocar.

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